Paixão que ultrapassa obstáculos

Apesar das dificuldades, atletas profissionais falam do amor pelo Esporte e de como não abrem mão de buscar a realização dos sonhos, ao mesmo tempo em que se dividem em várias tarefas

Adriana Moisés. Foto: Lorena Lima

“Sempre fui baixinha e todo mundo me questionava por estar em uma quadra de basquete. Tive que provar que não tem impedimento quando você realmente quer alguma coisa. Já vivi algumas situações de preconceito por ser mulher e por ser negra enquanto jogava, mas só me deixaram mais forte”, destaca a ex-jogadora da Seleção Brasileira de Basquete, Adriana Moisés, mais conhecida como Adrianinha, que, aos 13 anos, decidiu morar longe dos pais, abriu mão da família para lutar e conquistar espaço no esporte.

Em pesquisa realizada pelo estudo “Beyond 30 per cent: Workplace Culture in Sport”, cerca de 40% das mulheres do meio esportivo já sofreram algum tipo de discriminação. Foram ouvidos aproximadamente 1.152 homens e mulheres da indústria do esporte revelando que apenas 20% dos homens passaram por essa situação.

Realidade difícil de ser encarada por muitos mas, para inúmeras mulheres, são apenas alguns dos motivos que as impulsionam para fazer o que amam, com total entrega, rompendo barreiras e paradigmas, como é o caso da árbitra de futebol Raquel Ferreira que, desde a infância, era apaixonada pelo esporte. Escolheu o curso de Educação Física e lá foi informada sobre o curso de arbitragem de futebol, carreira que segue há dez anos. As dificuldades foram muitas, a maioria delas apenas por ser mulher.

Raque Ferreira. Foto: Google/Reprodução da internet

No ano de 1900, em Paris, na França, algumas barreiras começaram a ser derrubadas, havendo a permissão de que modalidades fossem destinadas às mulheres, resultando na inclusão do golfe e tênis femininos, apenas pelo motivo de não haver contato físico e por serem considerados esteticamente belos. O machismo e o preconceito dificultaram a entrada das mulheres nesse meio, e isso se reflete nos dias de hoje.

Cento e doze anos depois, nos Jogos Olímpicos de Londres (2012), pela primeira vez, os 204 países participantes levaram homens e mulheres para a competição e 44% dos participantes eram do sexo feminino. Foi o maior percentual de mulheres na história das Olimpíadas. Também houve competições femininas em todos os esportes. As mulheres comandaram a campanha vitoriosa dos Estados Unidos, conquistando 58 das 104 medalhas. A China também se destacou como vice campeã, e 49 dos 87 pódios foram femininos.

Com passar dos anos e das competições olímpicas, as mulheres ingressaram em outros esportes, mas ainda assim, há uma diferença expressiva não só na quantidade de mulheres participantes, mas também em relação à salários, tratamentos, entre outros fatores.

Para as mulheres que enfrentam essas dificuldades, o principal motor para seguir em frente é a paixão. Para Adrianinha, o basquete é uma das coisas mais importantes da sua vida. “Foi muito aprendizado que me fortaleceu. As oportunidades apareceram e, graças a Deus e a minha família, muitas pessoas me apoiaram e pude aproveitar”, afirma. Aos 26 anos, ela se tornou mãe de primeira viagem, recebendo o privilégio e um dos maiores desafios que a mulher pode ter. Conciliar as duas coisas não é fácil.

“Ser mãe e ser atleta de alto rendimento é muito difícil. Fui até questionada se queria ter minha filha mesmo. Ter que escolher entre a carreira e ser mãe é um absurdo, ser mãe é uma dádiva de Deus. Hoje, minha filha tem 12 anos e já é atleta também. Assim foi minha carreira, com quatro mundiais, cinco olimpíadas e com muita honra vestindo a camisa da seleção brasileira feminina. Encerrei minha carreira no Recife, onde moro, me casei e fui novamente mãe da bebezinha Regina”.

Encarar os desafios e correr atrás do que muitos acreditam ser profissão apenas para homens e que lugar de mulher é fora do campo ou das quadras, foi um dos desafios que a árbitra Raquel enfrentou, mas os motivos que a fazem continuar e exercer sua profissão são maiores do que qualquer um que queira desmotivá-la. “Paixão define minha relação com a profissão. Aprendi a gostar e levá-la como uma das minhas prioridades. Saber que, como mulher, posso contribuir para que outras mulheres acreditem que podem atuar em diversos locais de trabalho que ainda são considerados ambientes masculinos é gratificante e me motiva”.  

 

Mercado de trabalho

A luta das mulheres pela conquista de espaço é diária e ainda é marcada por muita resistência e pouco reconhecimento. O mercado de trabalho brasileiro mostra que as mulheres têm um caminho extenso a trilhar para igualarem-se ao reconhecimento dado ao trabalho dos homens. Outra pesquisa com quase 8 mil profissionais, realizada e publicada pelo site de empregos Catho, em 2018, revelou que as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade pesquisados. Uma diferença salarial alarmante que chega a quase 53%.

No Esporte não é diferente. A atividade profissional nesta área é caracterizada pela remuneração do exercício esportivo ao profissional que pratica, mas a diferença salarial é nítida. Prova disso é a lista divulgada pela revista Forbes que revela que entre os 100 atletas mais bem pagos do mundo em 2018 não há nenhuma mulher.

A fase de exclusão das mulheres na realização da prática de atividades físicas no Brasil seguiu o mesmo modelo internacional. A primeira edição olímpica que aconteceu em 1896. Segundo artigo publicado pela professora Katia Rubio, no Jornal da USP (2017), a participação das mulheres foi proibida e, se hoje há envolvimento e participação feminina, é graças à luta de centenas de mulheres, por mais de um século, reivindicando o esporte como um direito e não um privilégio.

E, por mais que estejamos em pleno século 21, algumas “justificativas” antigas para manter as mulheres longe dos esportes ainda perduram como, por exemplo, o comentário de que o excesso de atividade física podem ser considerados prejudiciais para o corpo das mulheres ou até mesmo mencionar que a mulher perderia sua “feminilidade” com a prática esportiva.

Soraya Barreto. Foto: Arquivo Pessoal

A Publicitária, atualmente professora da Universidade Federal de Pernambuco no curso de Publicidade e Propaganda e também pesquisadora de gênero, esportes e futebol, Soraya Barreto, vê que a mulher alcança seu espaço com luta e destaca: “Em toda história, a mulher não conseguiu nada dado, tudo foi conquistado. Seja como atleta como gestora, o segredo é resistência e ocupação. As mulheres estão ocupando esse espaço, estão se juntando e se mobilizando para ocupar esse espaço, e tem sido muito difícil, mas só através da luta e o querer se impor nesse lugar, participando mesmo ouvindo graça, ouvindo ou recebendo violência simbólica, o que digo é resistência e ocupação”.

A paixão que é capaz de dar força a inúmeras mulheres que se doam para ultrapassar qualquer tipo de barreira para conquistar aquilo querem e demonstram cada vez mais a força que a mulher tem. “Sobre mulher no esporte? A palavra que define para mim é: guerreira. Essa palavra traduz exatamente como a mulher que está no esporte é. Seja aqui, na Argentina, seja na Europa ou nos Estados Unidos. Às vezes falava que a seleção feminina brasileira que não tinham privilégios, apenas os homens, mas vi que outras mulheres de outros países e outras modalidades passavam por essa mesma situação. A mulher é guerreira, sim, e além de tudo, ela tem a cobrança de ser feminina, de ser mãe, de ser esposa. Mulher no esporte é guerreira”, destacou Adrianinha. 

Saiba mais…

Para essa pesquisa, foram ouvidos 1.152 homens e mulheres da indústria do esporte.

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Das mulheres do meio esportivo já sofreram algum tipo de discriminação

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dos homens passaram por essa situação.

“Na atividade de arbitragem, a mulher precisa atingir o mesmo nível de capacidade física e intelectual dos homens para estar habilitada a trabalhar nesses jogos, capacidade essa, aferida através de testes físicos e provas teóricas”.

Raquel Ferreira

Árbitra de futebol