Cartão vermelho para o machismo

Atletas que escolhem o Esporte como profissão ainda enfrentam preconceito, desigualdades salariais e falta de visibilidade na mídia. Um cenário que já foi bem pior, com as mulheres proibidas em certas modalidades

Joanna Maranhão. Foto: Arquivo pessoal

O nome de Joanna Maranhão, 32 anos, dispensa apresentações no Esporte Brasileiro. A nadadora pernambucana entrou para a Seleção Brasileira da modalidade aos 14 anos e possui oito medalhas em Jogos Pan Americanos, oito recordes sul americanos e quatro participações em Jogos Olímpicos. Joanna é uma atleta profissional e, para subir no lugar mais alto do pódio, enfrentou muitos obstáculos, às vezes mais difíceis do que a dura rotina de treinamentos,  a competência das adversárias ou seus próprios medos e expectativas. Por ser mulher e escolher o Esporte como profissão, Joanna precisou de força e resistência para encarar o machismo, fenômeno social histórico que atrapalha as conquistas femininas, especialmente em áreas tradicionalmente apontadas como “masculinas”.

“Enxergo (a trajetória da mulher no esporte) da mesma maneira que vejo a mulher no mundo em todas as profissões nas quais ela tenta se inserir e buscar o próprio espaço. Todos os dias a gente está quebrando porta, mostrando que somos capazes e questionando como as coisas eram feitas até então. Acho que a mulher no esporte é só um prolongamento da mulher no cotidiano”, compara.

As manifestações do machismo, sejam nas piscinas, nas quadras, nas pistas ou campo, vão desde comentários e atitudes aparentemente inofensivos, passando pelo assédio e abuso sexual e pela falta de investimento e patrocínio, que leva a uma menor visibilidade por parte da mídia e, consequentemente, à falta de interesse por parte dos fãs do Esporte nas competições entre mulheres. Um círculo vicioso que, se não impede, atrapalha bastante a profissionalização do Esporte feminino, que já chegou a ser proibido em algumas modalidades no Brasil.

Em 1941, o Conselho Nacional dos Desportos promulgou o Decreto-lei nº 3.199, de 14/04/1941, art. 54, especificado pela Norma 7/65,  que impedia as mulheres de participarem de algumas modalidades esportivas, consideradas “impróprias para natureza frágil e materna”. Entre elas estavam futebol, polo aquático, futebol de salão, rúgbi, lutas e corridas de longa distância. O decreto ficou vigente até o ano de 1979, ou seja, por quase 40 anos as mulheres foram proibidas de participar dessas modalidades. Com o fim do decreto, alguns pontos começaram a favorecer a prática esportiva e, em 1985, no fim da Ditadura Militar, a criação do Ministério da Educação e da Comissão de Reformulação do Esporte Brasileiro favoreceu a inclusão das mulheres através de políticas de incentivo.

Atleta do tênis de mesa, a paulistana Caroline Kumahara, 23 anos,  afirma já ter sofrido machismo e preconceito: “Desde sempre, toda hora. Esporte feminino frequentemente joga nas piores mesas e piores lugares do ginásio (menos espaço, menos iluminação etc), nos piores horários também e os comentários maldosos de técnicos ou de outros jogadores são incontáveis e acontecem o tempo todo”, dispara. A velocista paralímpica brasileira Verônica Silva Hipólito, de 23 anos, reforça o sentimento e destaca um episódio durante as Paralimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Aos 20 anos, ela estreou nos Jogos como medalhista, mesmo depois de ter passado por uma cirurgia no intestino e uma lesão menos de um ano antes da competição. Mesmo assim, após a entrega da medalha recebeu o seguinte comentário: “seu namorado não se incomoda com o tamanho do seu shorts não”?. “Bacana, né? Homens podem correr pelados. Bom relembrar: isso não é sobre uma briga, ou inimizade entre mulheres e homens. Isso é sobre empatia e igualdade”, enfatiza a atleta.

Os relatos de Joanna, Caroline e Verônica não se tratam de casos isolados. O machismo existe e está presente no meio esportivo até no que, para alguns, tratam-se apenas de simples comentários ou brincadeiras, como: “prove que você entende de futebol”, “mulher deveria pilotar fogão”, “vai lavar uma louça”, “lugar de mulher é em casa, preparando comida”, “você sabe o que é impedimento”?. O que já é muito ruim, ainda pode se agravar quando existe também o assédio, abuso e a objetificação das mulheres. De tão banalizadas, as “brincadeiras” naturalizam comportamentos e podem atrapalhar o desenvolvimento físico e mental das mulheres que escolhem trabalhar com o esporte, dentro ou fora das arenas. 

Além de um rostinho bonito

Uma das faces do machismo no Esporte é a objetificação do corpo feminino, presente nos uniformes desconfortavelmente curtos, nos comentários sobre a aparência das atletas que terminam sendo chamadas “musas” das suas modalidades ou na compreensão de que uma atleta bonita conquistou tudo pela aparência, e não pelo esforço, como aconteceu com a esgrimista brasileira Amanda Simeão. “Por ser vaidosa e gostar de me cuidar, algumas pessoas tendem a não valorizar meus resultados ou interpretarem meus feitos pela minha aparência. Por exemplo, quando um homem ganha um patrocínio, ninguém o questiona pela sua beleza, mas quando uma mulher consegue o mesmo incentivo insinuam haver outros motivos, além dos resultados. Isso é muito triste”, desabafa.

Amanda Simeão. Foto: Google/Reprodução da internet

Toda e qualquer mulher, seja aquela que se sente bem consigo, estando dentro dos padrões impostos pela sociedade ou não, tem potencial para conquistar seus objetivos, mas não é assim que alguns pensam. O corpo da mulher no esporte também é tido como atração e, dessa maneira, o lado profissional é passado despercebido ou também gera a desvalorização. “Mesmo nos Jogos Olímpicos, com várias coisas em jogo, a gente que está em piscina precisa tomar cuidado com o ângulo que fotógrafo vai tirar nossa foto, do nosso maiô. Essa é uma preocupação que os homens não têm. É um exemplo bem simples de como algumas pessoas enxergam o corpo da mulher”, pontuou Joanna Maranhão.

Desigualdade Salarial

Embora haja avanço da inserção das mulheres em inúmeras atividades consideradas masculinas, a diferença salarial entre os gêneros ainda acontece. Estudo especial feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Dia Internacional da Mulher, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), mostra que, mesmo com uma queda na desigualdade salarial entre 2012 e 2018, as mulheres ainda ganham, em média, 20,5% menos que os homens no país.

Já no ramo esportivo, a história não é muito diferente, principalmente no futebol. No meio dos esportes, patrocínio, salário, imagem, publicidade, mídia e divulgação, tudo isso se torna um conjunto para que a visibilidade aumente e o cenário mude um pouco.

De acordo com reportagem da Agência Publica, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil, em 2016, receitas privadas da Copa do Mundo masculina totalizaram US$ 529 milhões; no mundial feminino, US$ 17 milhões. O futebol é um dos esportes onde essa diferença entre os gêneros aparece de maneira clara. Baseado nas informações divulgadas pelo site Época negócios, Neymar chega ganhar 227 vezes mais que a melhor e mais bem paga jogadora do futebol feminino, Ada Hegerberg, já em relação ao atacante argentino, Lionel Messi, a diferença pula para 325 vezes a mais.  Se tratando das cinco jogadoras de futebol  que compõe a lista das  mais bem pagas do mundo, a única brasileira é Marta, seis vezes melhor do mundo, que recebe€ 340 mil por ano no Orlando Pride, enquanto Neymar recebe 267 vezes mais e o argentino Messi, 382 vezes mais.

A velocista Verônica Silva, afirma que, no esporte em que compete, as bolsas de apoio são calculadas de acordo com o nível de ranking mundial.  “No paralímpico eu não posso dizer nada. As bolsas são de acordo com níveis no ranking mundial, independentemente de ser homem ou mulher”.

Já no tênis, um dos mais igualitários em se tratando da questão de  gênero, uma vez que todos os principais torneios oferecem prêmios idênticos nas disputas femininas e masculinas, a diferença de salários e patrocínios dos primeiros do ranking ainda é considerável.

Com base na pesquisa realizada pela consultoria  Sporting Intelligence, no ano de 2017,  uma mulher na liga profissional de basquete dos Estados Unidos, a WNBA, tinha salário máximo de US$ 105 mil (R$ 406 mil). Já na liga masculina, a NBA, o salário máximo era de US$ 25 milhões.

No vôlei, as mulheres da seleção brasileira chegaram a reclamar sobre a diferença de valores pagos como premiação pela vitória no Grand Prix, competição internacional considerada uma versão feminina da Liga Mundial, no ano de 2016. A equipe recebeu US$ 200 mil (cerca de R$ 627 mil), repartidos entre os integrantes, mas, quando comparado à Liga Mundial masculina, o valor chega a ser cinco vezes menor do que é pago aos campeões.

A falta de incentivo atinge todos os esportes, inclusive o futebol. Pesquisa organizada pelo Sindicato Internacional de atletas de futebol (FIFPro), em parceria com a Universidade de Manchester, revela que aproximadamente metade das jogadoras não recebe salário algum para jogar, nem tem contrato formal com os clubes.  O estudo contou com 3.600 jogadoras de inúmeros países da Europa, África, Américas e Ásia. Sem receber, algumas optam por manter um outro meio para ter um renda e acabam tendo a dupla jornada. Essa é a realidade de 30% das jogadoras entrevistadas.

Nenhuma delas entrevistadas atua no Brasil, porém a realidade não é muito diferente, no ano de 2017, o portal de notícias da ESPN afirmou em matéria que cerca de 5 mil mulheres adultas praticam futebol mas somente dois clubes têm atletas com carteiras assinadas, os únicos considerados profissionais pela CBF, o Santos e o América-MG.

Entre as jogadoras dos dois clubes, a que chegou a receber mais alto naquele ano, era cerca de R$ 5 mil por mês, no América – MG o valor cai para R$ 3 mil.

 

 

Falta de reconhecimento

Caroline Kumahara. Foto: Arquivo pessoal 

A desvalorização salarial não apenas afeta o bolso das atletas, precariza a modalidade, levando à diminuição do reconhecimento e do interesse dos fãs do esporte. “Jogo de mulher não tem graça”, “elas nem aguentam por tanto tempo”, “é moleza demais” são alguns dos comentários para não assistir, prestigiar ou acompanhar jogos femininos, independentemente de modalidade. A esgrimista Amanda Netto sente essa disparidade e ausência de incentivo: “Infelizmente o interesse é muito inferior ao do universo masculino. Por um lado, entendo que seja por falta de visibilidade, porém não deveríamos ter menos reconhecimento, uma vez que ganhamos os mesmos títulos”, defende.

Já a mesa-tenista Caroline Kumahara acredita que essa falta de reconhecimento também se dá devido a maneira como a mídia veicula a imagem das mulheres. “A mulher é tratada como objeto, sempre sexualizada. A mídia olha mais para a “beleza” das atletas do que para a performance. E isso é muito sério. Enquanto isso não mudar, o reconhecimento do esporte feminino vai continuar assim: praticamente inexistente. Então a mídia e a sociedade precisam parar de brincar com as atletas e com o esforço que elas fazem  e começar a levar a sério seus resultados, suas histórias”, desabafa.

A opinião de Caroline é compartilhada por Verônica Silva: “sempre é muito difícil o reconhecimento. É fácil de falar sobre o homem mais rápido do mundo, mas nem todo mundo fala sobre a mulher mais rápida. E no basquete, rugby, futebol, futsal? Os times masculinos sempre vão existir, os femininos são um acontecimento. É complicado. Merecemos mais respeito, mais reconhecimento, todas nós treinamos tanto quanto eles”.

Saiba mais…

%

Dos atletas brasileiros que participaram dos Jogos Olímpicos de 2016 eram mulheres

%

das atletas ganham medalhas