Profissionais da cobertura esportiva

Ocupam menos espaços, sofrem assédio e passam por “testes de conhecimento”

“O machismo nos esportes se manifesta de várias formas, às vezes com agressões como, por exemplo, por uma repórter estar em campo e ser chamada de gostosa, ou até o  torcedor que tenta beijá-la por ela ser mulher. É machismo a partir do momento em que o homem desrespeita a profissional dentro de um estádio de futebol”, pontua a jornalista, Lorena Gomes, que já coordenou uma equipe de produção de esportes do Jornal do Commercio e atualmente é apresentadora do Jornal Anhanguera, afiliada da TV Globo em Goiás.  

Em 2011, pesquisa do Monitoramento Global de Mídia  avaliou 18 mil notícias esportivas publicadas em 23 países, divulgando que apenas 11% dos conteúdos foram realizados por mulheres. Já no ano de 2016, o site Gênero e Número que produz conteúdos jornalísticos independentes, avaliou colunas esportivas de dez grandes jornais do Brasil e, entre os líderes de circulação, mostrou que menos de 10% das colunas são assinadas por mulheres.

Esses são alguns dados que refletem a realidade e provam que não apenas atletas sofrem as consequências o machismo nos esportes mas aquelas que transmitem notícias esportivas também são vítimas. Levantamento feito pelo UOL Esporte divulgou que em programas realizados por emissoras de TV fechada, apenas 13% dos profissionais são mulheres. Em muitas situações, elas são responsáveis apenas por ler mensagens enviadas pelos telespectadores. Algumas até apresentam programas, mas sofrem preconceito e são mais cobradas do que os homens, como aconteceu com Lorena Gomes.

Ao apresentar o programa esportivo Replay, na TV Jornal, por um deslize, mencionou uma informação errada e, de imediato, foi corrigida de maneira machista por um internauta que acompanhava a transmissão pelo Facebook. “Falei sobre o Náutico e o Santa e, na época, eles estavam na Série C, mas mencionei que estavam na Série B. Lógico que sabia que eles estavam na Série C, mas aquela coisa de falar rápido e no improviso, acabei trocando uma letra pela outra e alguém comentou na transmissão ao vivo pelo Facebook, dizendo: ‘tá vendo, é porque é mulher e não sabe’. E não era, não foi por falta de conhecimento, foi porque na hora falei bem rápido e tenho certeza que se fosse um homem, não teria tido aquele tipo de comentário, ou talvez até passasse despercebido”.

Luciana Mariano. Foto: Arquivo pessoal

A trajetória da mulher no Jornalismo esportivo não é fácil mas já é possível perceber alguns avanços. Exemplo disso é trajetória da jornalista Luciana Mariano, primeira mulher a narrar uma partida de futebol na televisão brasileira, em 1997. Ela reconhece os avanços, mas se considera realista pois as oportunidades ainda são dadas de maneira gradativa. “Sem dúvidas as mulheres estão conquistando espaço no cenário esportivo mas não sou muito otimista, nem muito pessimista, porque a última vez que narrei futebol no trabalho antes de voltar a narrar e ir pra ESPN, teve uma janela aí de 21 anos e eu não acho isso normal. Se tenho a experiência, se tenho a técnica, porque fiquei tanto tempo sem narrar? Por falta de oportunidade. E essa falta de oportunidade me diz alguma coisa, então é nisso que penso muito, quando a gente fala que tá conquistando espaço”, destacou Luciana sobre o tempo que passou sem ter uma mulher narrando um jogo de futebol.

 Por ser mulher e querer garantir espaço no jornalismo esportivo, muitas vezes é preciso provar conhecimento, (dado que mostra que a mulher tem que provar que sabe) e sofrer cobranças que geralmente se manifestam em questionamentos para testar os conhecimentos delas.  Elas são testadas como se o “entender” daquele assunto fosse algo naturalmente restrito aos homens. Existe sim um esforço feminino para buscar aprender mais já que, por algumas vezes, os conteúdos esportivos são destinados aos homens, então não existe o mesmo ponto de partida nesse caso, não há uma igualdade desde o começo.

 “Não estamos no mesmo ponto que os homens. Nós não saímos no mesmo lugar, não há equidade, porque os homens narram há 80 anos e nós narramos há pouquíssimo tempo. Também não dá pra ficar exigindo que a gente saiba coisas que a gente não viveu”, destacou a narradora.

 É claro que esse fato não prova que a mulher não tem interesse ou potencial para absorver ou gerar conteúdo esportivo. Luciana foi alvo de uma situação onde teve que “provar” seu conhecimento, logo após ter assinado um contrato com a Rede Bandeirantes, tornando-se narradora da emissora de televisão. Alguns dias antes da  estreia, recebeu uma ligação de um repórter de outro veículo solicitando uma entrevista. “Quando ele me ligou, começou a fazer uma espécie de quiz. Perguntou qual foi o último campeão brasileiro, quem fez o último gol do Flamengo, sabe? Coisas para testar se de fato eu sabia de futebol, se sabia o que estava fazendo. E hoje, só hoje, consegui enxergar que isso foi horrível”.

 Os dados mostram que há evolução na participação feminina na mídia esportiva, mas ainda é um envolvimento “tímido”, principalmente em eventos de grande porte, mas isso não acontece por falta de competência feminina mas por ausência de oportunidade. 

#DeixaElaTrabalhar

Jornalistas esportivas contra o assédio, unidas na campanha #DeixaElaTrabalhar Foto: Reprodução/Twitter

Pesquisa sobre assédio e discriminação de gênero nas redações, realizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) juntamente com a plataforma Gênero e Número, divulgou em 2017 que 70,4% das mulheres entrevistadas admitiram já terem recebido cantadas que as deixaram desconfortáveis durante a prática profissional. Foram ouvidas 477 mulheres e 86,4% afirmaram já ter passado por ao menos uma situação de discriminação de gênero no trabalho.

Esses números são reais e a reação ao assédio promovida pelas próprias jornalistas foi o movimento iniciado nas redes sociais no mês de março de 2018, chamado: “Deixa Ela Trabalhar”.

Estimulado por cerca de 52 jornalistas esportivas, entre apresentadoras, repórteres, assessoras, produtoras, profissionais de diversos veículos de comunicação, a ação uniu forças por uma mesma causa: lutar contra a falta de respeito, o assédio moral e sexual sofrido por elas dentro dos estádios, das redações e nas ruas.  

O movimento repercutiu e foi apoiado por diversos clubes brasileiros de futebol e outros esportes, como o judô, vôlei e basquete, trazendo o assunto à tona, já que muitas vezes é abafado ou tratado como “mimimi”. Além de denunciar, a proposta tinha como objetivo motivar e dar força para aquelas que seguem em sua profissão e as que pretendem um dia seguir.

 

Como os esportes femininos são vistos pela mídia

 As situações de preconceito e assédio sofridos fora do campo pelas jornalistas e demais profissionais envolvidas na cobertura esportiva não é muito diferente do que passam as mulheres que disputam espaço no esporte dentro do campo ou da quadra. A percepção da mídia sobre as modalidades femininas também é enviesada pelo machismo ou, no mínimo, cede aos apelos do campo historicamente dominado por homens. As competições entre mulheres claramente ocupam menos espaço e, consequentemente, despertam menos interesse da audiência. O ano de 2019, no entanto, aponta uma mudança importante na cobertura do esporte mais popular do Brasil, o futebol .

Pela primeira vez, a Copa do Mundo de futebol feminino, criada em 1991, será transmitida em uma emissora de TV aberta, a Rede Globo, maior emissora do país. Em 2015,  o SporTv, emissora por assinatura e a TV Brasil, rede pública, transmitiram a competição, mas nunca obtiveram grande audiência.

 

Daiane Medeiros. Foto: CBF/Divulgação

Acredito que tenha evoluído muito o reconhecimento do esporte feminino no Brasil. Está muito mais visível agora”, destaca Daiane Medeiros que, com apenas 21 anos, faz parte da nova geração de futebol feminino da Seleção Brasileira. “Foi uma das maiores conquistas que conseguimos esse ano, foi incrível saber desse fato, é mais uma batalha vencida, mas a luta não pára”, completa.

 Mesmo com esse avanço, infelizmente ainda há uma desvalorização das próprias emissoras de televisão em relação à transmissão de jogos femininos,  mas o assunto ainda é pouco comentado e não se restringe à TV, mas envolve o jornal impresso, web e rádio também. Em todos os veículos, sempre mais tempo é dedicado a esportes masculinos.

 A mulher vem mostrando que é capaz de conquistar seu espaço nos esportes mesmo sem grande cobertura da mídia, o que dificulta conquistar audiência, investimento, patrocínio e público.

 Dados divulgados pelo jornal digital Nexo revelam que apenas 420 ingressos foram vendidos para a partida do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino de 2017, o que rendeu um prejuízo de R$ 5.300,00 para os organizadores. No ano anterior, o Brasileirão masculino teve média de 15.293 espectadores por partida.

 Fora do Brasil, os números são mais animadores. No Campeonato Italiano feminino deste ano, uma partida entre Juventus contra Fiorentina reuniu cerca de 39 mil torcedores na Arena Juventus, que tem capacidade para 41.507 espectadores, o que se tornou quase  o triplo do recorde anterior registrado no país, que era de 14 mil pessoas na semifinal da Champions feminina entre Verona e Frankfurt, em 2008. Já na Espanha, no mês de março deste ano, o estádio Wanda Metropolitano recebeu público que bateu recorde mundial em uma partida entre clubes femininos de futebol no clássico entre Atlético de Madrid e Barcelona pelo Campeonato Espanhol: 60.739 espectadores.

 

Lorena Gomes. Foto: Jc Online

Os números confirmam que o Brasil ainda segue atrás de muitos países mas é possível, sim, alcançar mais espaço, mais reconhecimento e valorização através da participação das próprias mulheres nos espaços de decisão dentro das redações. Lorena Gomes, por exemplo, enquanto esteve à frente de um programa esportivo na TV Jornal, tentou ampliar a cobertura e implantar na TV JC, área específica do canal no Youtube da emissora. “Enquanto apresentava o Replay, tentava trazer assuntos relacionados ao futebol feminino. Acho que é uma tentativa, mas era muito difícil. Também tentei colocar na TV JC e já estava tudo certo pra um programa esportivo voltado só para mulheres, era uma coisa semanal. Eu fazia resenha feminina que eram só as mulheres falando sobre futebol, pra tentar puxar um pouco, trazer mais a mulher pro esporte, mas do esporte envolvendo uma mulher atleta, o lado feminino, acho que a mídia faz muito pouco e no fundo ele é pouco valorizado, o dinheiro é menor”.

O universo feminino vem garantindo seu espaço dentro dos esportes e conquistando avanços, através de muita garra, competência e força de vontade, mas muito ainda precisa ser feito para que as diferenças sejam eliminadas, e o justo reconhecimento se torne cada vez maior, deixando de lado o machismo.

Saiba mais…

%

dos jornalistas credenciados para Copa do Mundo de 2018 eram mulheres

%

dos jornalistas credenciados na Copa de 2014 eram mulheres

Fonte: Folha de São Paulo

A Copa do Mundo de futebol feminino da França que estará acontecendo entre os dias 7 de junho e 7 de julho deste ano, terá um álbum de figurinhas lançado pela empresa Panini. Será o terceiro mundial feminino com álbum produzido pela empresa. Os primeiros foram em 2011 e 2015.

Serão 480 figurinhas em um livro com 56 páginas. As 24 equipes terão figurinhas de 17 jogadoras, uma do distintivo e com a equipe posada. Já os estádios presentes nas nove cidades e campeões das sete edições anteriores também serão representados com cromos.