Não deixe o brega morrer

 

“O brega sempre foi o ritmo que mais se manteve ao longo de anos e anos, sempre foi referência e vai continuar sendo, pois o brega de hoje é apenas uma renovação do brega de ontem”. – Marcos Silva

A palavra “brega” no final da década de 60 tinha o intuito de desqualificar uma música que seria de “mau gosto”, uma vez que estavam atreladas em geral ao cotidiano da população menos culta, no sentido da cultura clássica, e também dos que possuíam menos condições, do ponto de vista financeiro. No final dos anos 80 e na década de 90 o ritmo ficou conhecido, nacionalmente por meio do cantor Reginaldo Rossi, que cantava músicas românticas sobre histórias envolvendo a dor de cotovelo ou desabafos de traição, vale destacar que a carreira de Rossi existia há mais tempo, desde os anos de 1960, quando integrava a banda de rock The Silver Jets.

No início dos anos 1990, surgiram novos nomes no cenário pernambucano. A Banda Labaredas, foi um grupo motivador da expansão do brega com suas músicas românticas sobre mulheres e desilusões amorosas. Neste mesmo período, o cantor Conde só Brega caiu nas graças do público e suas músicas viraram hinos do brega, como: Não devo nada a ninguém e A vida é assim.

Com influência do Tecnobrega, gênero musical do Pará, os anos 2000 ficaram marcados pela Banda Calypso, um estilo inovador, que trouxe coreografias, bailarinas, músicas dançantes e uma mulher no vocal. A partir daí, as vozes femininas passaram a ter presença significativa na cena brega, a exemplo da Banda Metade, com Michelle Melo; Ovelha Negra com Palas Pinho; Banda Carícias com Carina Lins e a Nega do Babado.

Nega do babado ficou conhecida quando lançou a música Milk Shake. Segundo ela, o tecladista da banda Swing do Pará surgiu com essa música pois acreditava em sua potência vocal. “Quando eu cantei e criei aquele refrão, ele disse que eu podia parar que é isso aí que a gente quer. Ele é um produtor muito taxativo e dizia que a mesmice era o problema e eu sou altamente muito louca e por isso que colou Milk Shake , em 8 dias a música estava estourada e há 14 anos Nega do Babado é Milk Shake”.

A indústria fonográfica neste período ainda possuía preconceitos em relação a esse estilo musical. Então, para que pudessem comercializar os seus materiais, as bandas e cantores disponibilizavam CDs piratas para os carroceiros que vendiam em feiras e nos bairros por onde passavam. Nesta época, existiam, também, os programas populares de auditório da televisão local que ajudavam nessa divulgação.

A cantora Danny Myler, que ficou conhecida através da banda Lolyta, lembra bem da batalha que eram as divulgações. “Na época em que comecei, a gente batalhava muito com as rádios comunitárias, íamos nas comunidades para fazer um trabalho mais intensivo com distribuição de CDs piratas, abraçava os carroceiros. A pirataria em si era o que divulgava o brega e as TVs com programas de auditório que davam aquela força. Antes não tinha a força que a rede social tem, então eu acredito que hoje a rede social/internet favorece bastante os artistas atuais e fez com que o brega rompesse barreiras e se tornasse um estilo conhecido internacionalmente”.

Segundo o jornalista e pesquisador Thiago Soares em seu livro “Ninguém é perfeito e a vida é assim”, em 2005, o brega teve algumas mudanças, especialmente, com a chegada do digital, e com a aparição de novos cantores e cantoras locais. Com batidas mais dançantes, o brega conquistou grande relevância tornando-se um dos ritmos mais tocados do estado de Pernambuco.

Com o surgimento do digital as famosas “carrocinhas” caíram no ostracismo, pois havia mais facilidade com a internet.

Em 2010, o brega tem uma explosão com a influência do funk carioca e traz para o estado o conhecido Brega Funk. É a partir daí que aparecem os MCs: MC Sheldon, MC Metal, MC Cego, MC Elloco, MC Leozinho, MC Boco, entre outros, que fizeram desse modelo um negócio de sucesso. Em comum, eles apresentam um estilo jovial e uma abordagem de temáticas do cotidiano. Além disso, o modelo baseado no MC demanda menos recursos do que as bandas, pois as gravações das batidas eram feitas em estúdio e não precisavam de todo o equipamento para um show que um banda necessitaria.

Para Dany Bala, um dos maiores produtores de música brega, existe um baixo custo na produção do Brega Funk, por isso se tem mais facilidade. “O brega é mais acessível, o valor para você gravar uma música é mais baixo e para você gravar um clipe é mais baixo também”.

Foram esses MCs com suas novas propostas que fizeram do brega um ritmo mais elétrico e sensual. A partir deles, a expressão “novinha” se popularizou e virou hit no meio e nas redes. A internet, por sua vez, proporcionou para o brega um canal de divulgação significativo. Os cantores fizeram clipes com produções mais elaboradas e músicas para plataformas digitais e o ritmo se disseminou nas redes sociais e sites sobre o tema, o que se tornou também um meio de propagação do brega.

Os nomes que tomam conta da cena musical do brega atualmente em Pernambuco junto com as bandas e cantoras já consagradas no meio são: MC Troinha, MC Dadá Boladão, MC Japão, MC Elvis, MC Tocha, MC Japa, Sheldon Ferrer, Mc Bruninho, MC Cego, Mc Loma e as Gêmeas Lacração, Niago e Seltinho, Shevchenko e Elloco, Tayara Andreza, Eduarda Alves, Musa, Amigas do brega e entre outros.

A indústria cresceu de uma maneira estrondosa. Prova disso são os dados da maior plataforma de música do país, o Spotify. Podemos citar faixas de brega-funk que chegaram ao primeiro lugar da lista “As 50 virais do mundo”, como por exemplo a música “Envolvimento” de Mc Loma e as Gêmeas Lacração, que chegou a ficar em primeiro lugar na lista, além desses artistas, a música de Mc Bruninho “Jogo do amor” ficou no top 3 da lista.

O movimento brega vem se expandindo e alcançando seu espaço.

No ano de 2018, inclusive do ponto de vista legal com a instituição da Lei nº 16.044/2017, que garante a preservação da manifestação brega como bem cultural do estado. A partir dessa lei foi criado, também, o dia do brega na capital pernambucana, que passou a ser o dia 14 de fevereiro. Com isso o movimento se torna um expressão cultural do estado de Pernambuco e coloca a obrigação do governo garantir o espaço para o brega em suas programações.

Em 2019 o brega cresceu mais ainda e uma das maiores emissoras de televisão, a Rede Globo, fez um documentário sobre o movimento, produtores musicais do meio brega estão em São Paulo, hits estão sendo lançados todo momento e o brega está perto de alcançar mais espaço nacionalmente.

Glossário

“Não deixe o brega morrer” é uma música lançada pela banda aparência.