Rick Negreiros

Sobre entender o corpo, além de amá-lo

O processo de autoconhecimento de Rick sobre o próprio corpo começou desde a adolescência, a partir do momento que passou a se identificar uma pessoa gorda e lgbt.

A pressão estética vendida pela mídia e cobrada pela sociedade, passava longe da forma como Rick se identificava. Ao transitar pelos espaços públicos e desenvolver relações afetivas, ela percebeu que, na verdade, não conseguia dissociar o que mais pesa na balança em relação às repressões sociais que sofre desde jovem.

Rick Negreiros tem 22 anos, é publicitária, criadora de conteúdo, ariana, bicha, pernambucana e aceita os pronomes masculinos, femininos e sempre que possível linguagem neutra.

Segundo a pesquisa “Bullying e Homofobia: Aproximações Teóricas e Empíricas”, a LGBTfobia é a terceira maior causa de bullying no Brasil. A Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil de 2016 também expõe dados alarmantes sobre as violências nos ambientes escolares vividas pelos jovens dessa comunidade, como demonstrado a seguir:

Então, mesmo pertencendo a uma comunidade que luta pela aceitação de todas as formas de amor, Rick ainda sentia que as relações de afetividade ocorriam de forma diferente dos seus amigos gays, e que isso estava relacionado à sua aparência. Com o tempo, o cuidado com o corpo e pele, tido inicialmente como um hobby, evoluiu para um autocuidado maior e transformador. Enquanto consumia vários conteúdos na internet voltados para a auto-estima, descobriu o movimento Corpo Livre, e finalmente passou a se identificar e enxergar pessoas gordas como verdadeiras protagonistas. “Passei muito tempo crendo no corpo magro como o único, legítimo e saudável. A partir desse movimento, comecei a entender que o corpo gordo é uma potência de possibilidades e que ele pode fazer tudo aquilo que quiser. Conseguir me situar no presente momento e entender que eu nunca fui magra no processo da minha vida, que meu biotipo nunca foi magro, me fez entender que não tenho como mudar o que é meu natural. Até hoje, imersa nos meus processos de autoconhecimento, compreendo que eu sempre fui assim, isso torna o processo menos complicado”, pontuou a publicitária.

À medida que Rick conseguiu entender seu corpo enquanto uma potência, ela começou a levar isso para a internet (@ricknegreiros). “Lembro como se fosse ontem, a primeira vez em que eu coloquei um biquíni, as minhas amigas me incentivaram, só a parte de cima porque a debaixo não cabia, mas esse ato, já me fez sentir livre e empoderada. Comecei a compartilhar nas redes sociais esses processos e a ver outras mulheres gordas falando sobre isso, pois meu referencial sempre foi e sempre será mulheres. Então, comecei a ouvir mulheres gordas falando sobre seus processos, sobre liberdade, comecei a acompanhar e começar a ver outras possibilidades, sabe?”, relembrou a influencer, que acredita que essa troca de experiências virtuais faz com que as pessoas repensem sobre comportamentos e expressões gordofóbicas.

A partir desse processo de autoconhecimento, Rick criou um projeto chamado “Descubra sua beleza no carnaval”. É que estruturalmente, a sociedade dá uma abertura maior para comportamentos extravagantes durante essa época. As pessoas sentem mais liberdade para vestirem o que quiserem, pintarem os cabelos, existe uma potencialidade para ser livre. “Para mim, o carnaval sempre representou liberdade, aí eu pensei: eu amo o carnaval de Recife e Olinda, sou super bairrista… Eu amo falar sobre beleza e estou nesse processo sobre corpo, então por que não juntar o corpo e o Carnaval? Mas eu quero trazer uma perspectiva de que a gente pode sair livre, da forma que quiser e começamos a trazer isso para o resto do ano”. A produção contou com um ensaio fotográfico e uma série de vídeos que chamava os seguidores de Rick a enaltecer e compreender partes do corpo que se sentiam desconfortáveis em mostrar.

A voz da impostora

Mas a jornada de autoconhecimento sobre si e o próprio corpo não é só de altos. Nesse sentido, Rick ressalta a importância de entender os seus limites, quando tudo parece estar muito complicado e as inseguranças ficam mais evidentes, nesse momento a impostora tende a surgir. “Existe alguém que nunca ouviu a sua impostora? Aquela voz interna que se agarra aos piores momentos para dizer que a pessoa não é suficiente”, explica.

Talvez por ter passado tanto tempo sentindo que as relações afetivas aconteciam de forma muito superficial e se sujeitando a pequenas trocas, para Rick já não faz sentido manter relações e sentimentos por alguém que são exclusivamente sexuais e voltados ao falocentrismo. Cada vez mais, ela percebe como isso é presente até na comunidade lgbtqia+, mais especificamente entre homens gays. Apesar do envolvimento sexual, também fazer parte do processo, a publicitária acredita ter muito mais a entregar, e quando a impostora vem e mostra que existe alguém melhor, esse é o sentimento que ela tenta expressar.

Pandemia e auto-estima

Com a rápida disseminação do Covid-19 e a declaração de estado de pandemia, o mundo inteiro entrou em quarentena nas suas casas e tiveram que obedecer a medidas de distanciamento preventivas. Rick não romantiza esse acontecimento, mas por conta disso foi forçada a parar sua rotina que vivia no automático, “Acho que este momento de pandemia foi para mim o momento de tentar cuidar dos meus sentimentos e hoje em dia acho que é a coisa mais importante que eu tenho na minha vida. Não interessa qualquer outra coisa, os meus sentimentos são a coisa mais incrível que eu possa ter em minha vida e que ninguém tem o direito de tirar, que ninguém consegue tirar.”

Um artigo publicado no Jornal da Associação Médica Americana fez um levantamento com estudantes universitários na França sobre os fatores de risco à saúde mental em virtude do confinamento.

Rick acredita que hoje consegue manter um relacionamento estável com o próprio corpo, isso não significa amá-lo o tempo todo mas compreendê-lo. Essa é a principal mensagem que ela extrai do movimento Corpo Livre.