Mari Cid

Despir, vestir e colorir!

O constrangimento de usar uma sombra colorida, um cropped ou um biquíni ficou para trás na era dos movimentos de libertação na internet, é isso que Mariana Cid vem trazendo para inspirar outras mulheres. A recifense tem 28 anos, é formada em publicidade, design gráfico e, atualmente, produz conteúdos sobre o empoderamento de mulheres gordas, moda plus size e representatividade. Porém, nem sempre foi assim, desde muito jovem ela lutou contra seu corpo, pois acreditava que tinha tendência a engordar com mais facilidade por vir de uma família de obesos.

“Tinha muito essa luta contra a balança, não fui uma criança gorda porque minha mãe controlava muito minha alimentação. Quando fui crescendo, tive alguns problemas porque eu nunca era igual as meninas do colégio… Elas eram sempre magérrimas e mainha falava que eu tinha o esqueleto grosso com ossos fortes e largos.”, recorda Mari sobre a adolescência.

Durante essa fase, a jornada para a construção da autoestima das meninas é um processo com muitos altos e baixos. Desde jovens, elas são cobradas socialmente a limitar seus comportamentos com ensinamentos que vão desde a maneira tida como correta para se portar e gesticular, até proibições baseadas no machismo. A aparência também não fica de fora, os padrões eurocêntricos costumam ser cobrados até mesmo de pessoas com realidades completamente opostas a esta. O padrão que determina diz que é preciso ser branca, loira, magra e de cabelo liso custa a saúde física e mental de muitas mulheres anualmente.

Nesse sentido, a Dove vem desenvolvendo um projeto chamado “Dove pela Autoestima” desde 2004 com o objetivo de promover pesquisas sobre autoestima, imagem e confiança corporal de mulheres e meninas.

Mari nunca considerou ter o peso “ideal” de acordo com os padrões do IMC, mas devido à rotina exaustiva durante seu primeiro emprego, ela não conseguia manter horários regulares de almoço e optava pelas opções mais práticas. “Durante esse período de 2 anos, eu engordei 30 quilos. Eu saí dos 70 quilos e fui para 100, foi uma mudança drástica na minha vida porque eu comecei a perceber como as pessoas ao redor estavam reagindo ao meu novo corpo”.

Aos poucos, Mari entendeu que alguns ambientes e relacionamentos estavam sendo prejudiciais para o seu bem-estar. “Eu tinha terminado a minha segunda faculdade, estava morando fora de casa e foi extremamente libertador. Esse processo mudou meu jeito de me relacionar com as pessoas, até amorosamente. Quando eu acabei o namoro, que foi no começo de 2015, eu fiquei muito mal e comecei a perceber que até quando eu tinha alguma paquera, algo mais casual com alguma pessoa, eu me depreciava muito, eu me sujeitava a muitas coisas negativas.”

Em 2016, Mari conheceu seu companheiro atual no tinder e finalmente sentiu o que esperava de um relacionamento saudável, uma pessoa que gostava da sua companhia e personalidade e assim ela conseguiu ver nessa relação todos os pontos negativos aos quais ela se sujeitou por muito tempo em outras.

Completando 3 anos de atividade no instagram (@maricids), Mari sempre procurou áreas de criatividade para se expressar e um grande incômodo que ela tinha era a dificuldade que enfrentava para usar moda alternativa, vestindo acima de 48 e com um salário base que só dava para sustentar o básico todo mês. Então, ela começou a divulgar as lojas que encontrava pelo Recife que tinham moda plus size e um preço em conta, daí o nome inicial de seu perfil ser “tem tamanho maior”.

Desde 2015, a moda plus size começou a ganhar destaque nas redes sociais e sempre teve interesse na área. Então, ela começou a estudar e se aprofundar nos temas relacionados ao ativismo gordo, movimento body positive e fatshion para poder debatê-los com mais propriedade. “Eu estou vendo que está tendo este movimento das grandes marcas, pelo menos das lojas de departamentos, de se conscientizarem um pouco mais e aumentarem a gralha aos poucos, mas ainda é preciso explorar mais esse mercado”. A maioria das marcas categorizam o plus size como todos os tamanhos a partir do 44, porém um estudo do Senai feito em 2013 mostra que o padrão de medidas da mulher brasileira está entre o tamanho 42 e 46.

“A história da gordofobia afeta muito o psicológico das pessoas sabe, é uma contradição você dizer que se preocupa com a saúde da pessoa por que é gorda e ela está com as taxas alteradas e isso incentiva outras pessoas a serem assim”, explica a publicitária. Através dos seus seguidores, Mari percebeu que seu conteúdo não podia focar só em roupas, se ela estava dialogando com um nicho de mulheres gordas, ela tinha que abordar assuntos relacionados ao corpo e autoestima primeiro.

O reconhecimento para Mari é poder observar o impacto que ela tem em suas seguidoras: “eu fico muito muito assustada com a quantidade de mensagens que eu recebo e eu sou uma produtora de conteúdo muito pequena, eu tenho 6.000 e poucos seguidores aqui de Recife e Olinda. Mas é assustador como eu recebo mensagem de mulheres que nunca usaram um biquini e por minha causa decidiram comprar um ou nunca botavam a barriga de fora… o braço… Isso pra mim é o meu propósito!”. É através desse feedback que ela percebe o quanto é fundamental ter representatividade nos meios, principalmente nas redes sociais como o instagram que tendem a dar mais relevância para perfis de mulheres magras, brancas e de cabelos lisos.