Geisa Agricio

É gorda que chama

Geisa Agricio é pernambucana, tem 39 anos e atua como gerente de desenvolvimento institucional do Paço do Frevo, que é um espaço cultural dedicado ao ritmo musical, e na liderança de comunicação do Cais do Valongo, que é o porto que recebeu mais navios negreiros na América, ambos reconhecidos como patrimônio da humanidade. Além disso, é mãe, jornalista, mulher negra e reconhecidamente gorda há 5 anos. O fato de se reconhecer como mulher gorda há poucos anos, não a eximiu de sentir outras dores durante a infância.

A jornalista aprendeu com a família, desde cedo, a valorizar sua identidade de pessoa negra. Sua mãe elogiava a beleza dos cabelos e dos traços da filha, reforçando a percepção de que as pessoas são bonitas e não precisam se adequar aos padrões da branquitude. “Essa relação com o corpo na infância, era um sentimento de desajuste. Inclusive, eu falo dessa coisa até no mercado, é difícil gostar do próprio cabelo se não existe produto para ele, como dar jeito nele. Então, eu tinha que esconder minha natureza.

Com a pré-adolescência, esse desajuste ficou cada vez mais evidenciado, Geisa começou a se comparar estruturalmente e corporalmente a realidades que não eram dela. Além do cabelo, ela se preocupava por usar um tamanho de roupa maior do que as suas amigas, 42. Com 14 anos, decidiu recorrer a um endocrinologista que explicou que o tamanho que ela usava era adequado à sua estrutura óssea e muscular, as palavras do médico nunca saíram da sua cabeça: “No dia que você usar um 38, você estará doente”. O que ela não sabia era que isso aconteceria mais para a frente.
Em 2005, completando 22 anos, Geisa teve uma doença na vesícula, durante 6 meses ela passou por uma alta restrição alimentar e perdeu cerca de 15 quilos. Foi a época na qual esteve mais magra durante sua vida adulta e finalmente coube “no tal do short 38”. Assim, ela percebeu o que realmente incomodava as pessoas em seu redor, não era seu quadro de saúde, mas o fato dela ser gorda. Socialmente, o emagrecimento é sempre associado a algo positivo, com o intuito que as pessoas se reconhecem nos padrões de beleza. Mesmo com uma maior inclusão de corpos diversificados nas mídias tradicionais, sempre existe um padrão que pode ser refletido até no nicho de pessoas plus size.

A prática do olhar sobre o próprio corpo foi um exercício que Geisa resolveu levar para a página @gordaquechama – perfil onde dialoga com sua amiga e jornalista Marta Telles. Assim, ela considera que ao se tornar uma curadora de novas possibilidades, ela abre espaço para discutir temáticas sobre gordofobia, pressão estética e empoderamento partindo da sua vivência, como também para chamar a atenção daquela amiga que é magra ou daquele namorado tóxico que vivem de discursos violentos sobre o corpo gordo.

A jornalista entende a importância de trabalhar as interseccionalidades de cada mulher e a importância de abordar diferentes narrativas. “É diferente a relação do corpo gordo racialmente. A mulher branca tinha tudo para ser o padrão, ela sendo gorda se sente falha pois ela sucumbiu, ela não atingiu aquela expectativa do que ela deveria ser. A mulher preta – estudando o corpo das mulheres africanas – nas culturas matriarcais, o corpo fazia parte do coletivo, não era tão do indivíduo, até os verbos são mais pluralizados. A libertação dos peitos, por exemplo, segundo esse feminismo branco… Quando paramos para pensar no corpo da mulher negra, isso não faz sentido, porque o nosso corpo sempre teve exposto em praça pública.”
Nesse sentido, esse é o papel que Geisa acredita que deve assumir enquanto comunicadora: contribuir com uma comunicação que enxergue todas as pessoas, que as observe e as inclua em questões de complexidade e subjetividades. É um risco introjetar pessoas gordas apenas em pautas relacionadas ao seu corpo, de forma a categorizá-las apenas nesse recorte. “A gente quer que pessoas gordas, negras, portadoras de deficiência possam viver todas as suas subjetividades, do amor, da ciência, da crise existencial, da maternidade, da morte, do luto. Parece que em nosso caso tudo gira em torno do corpo.”, defende a jornalista.

Ela entende a importância de existirem cada vez mais essas mulheres que trazem seus corpos de formas reais, sem filtro, alterações e que espalham a mensagem do corpo livre, mas também sabe que a falta de acesso de pessoas gordas às posições de poder ainda é o grande problema. “A gente gasta gerações e muitos recursos emocionais, físicos, financeiros e sociais desperdiçados nesse movimento de insatisfação. Na verdade, eu desisti de gastar o meu tempo brigando com isso e de focar em outras coisas, outros ganhos que eu posso ter além da grande vitória de conquistar um corpo que eu nem sei mais se é bonito.”

Dessa forma, Geisa acredita que as mulheres gordas nunca serão vistas como o padrão ideal de beleza – esse não é o ponto da questão. Mas sim, entender como esse padrão é utilizado e comercializado para que a mulher coloque aquilo como a sua meta de vida. Existe um mercado movimentado por esse padrão, de moda, produtos estéticos e até um estilo de vida fitness. Uma das formas que ela tenta combater essa monopolização, é através de seu consumo consciente. Segundo a pesquisa global da Accenture Strategy, 83% dos consumidores brasileiros preferem comprar de empresas que defendem propósitos alinhados aos seus valores.

Além de estar atenta aos posicionamentos das empresas, os espaços que não tem mulheres gordas, pretas, indígenas, LGBTQIA + precisam ser chamados à atenção, para então as pautas sobre gordofobia, machismo, racismo, etc. serem trabalhadas diariamente. “Eu como pessoa preta fico no incômodo onde trabalho, trabalhamos negritude, diversidade, vários projetos… Mas a gente tem negros na liderança?”. O Perfil Social, Racial e de Gênero do Instituto Ethos realizado em 2019 aponta que pessoas negras ainda são sub-representadas no mercado.

A menina que Geisa recorda no início desta matéria que sofreu com a falta de representatividade, dificuldade para afirmar sua identidade e um sentimento de desajuste, está transformando essa experiência, através da comunicação, em um narrativa para combater os padrões classistas e elitistas que não pertenciam à sua realidade. “Não vamos deixar de incomodar, no meu lugar de militante eu sempre digo que se conseguirmos causar o mesmo incômodo que eles causam na gente, se eu conseguir constranger o quando fazem comigo, eu só o devolverei um pouco. O movimento é ser esse incômodo para as pessoas olharem para isso”, finalizou.