Censura de corpos

A modelo que mudou a política de nudez do Instagram

Desde da criação do Instagram, em 2010, surgiram controvérsias em torno de fotos de mulheres que eram retiradas da plataforma por violarem as diretrizes da comunidade. A justificativa dos desenvolvedores do aplicativo para removê-las era o bloqueio de todo o conteúdo pornográfico. Assim, qualquer imagem que continha seios e mamilos expostos estava sujeita a isso. Com a evolução da rede social, que tem um bilhão de usuários ativos e tomou proporções globais, vários artistas começaram a usar seus perfis para se expressar e divulgar seu trabalho, como é o caso Nyome Nicholas – Williams.

Com 28 anos, a modelo britânica já trabalhou com marcas e publicações como Adidas, Dove e a Vogue. O diferencial de Nyome é que ela concilia seu ativismo como mulher negra e plus size à brilhante carreira que vem trilhando. Uma das pautas para qual ela chama a atenção é a censura de fotos publicadas no instagram, já que é uma ferramenta muito importante para modelos exporem suas produções. “A partir do minuto que aplicamos intersecções de raça, deficiência e sexualidade, fica cada vez mais difícil de existir no Instagram”, contou a britânica em artigo publicado pela Refinery29.

No dia 29 de Julho, Nyome publicou uma foto no seu perfil que tinha sido capturada no mesmo dia pela fotógrafa Alex Cameron. A imagem, na qual ela está sentada e abraçando seus seios com as mãos, rapidamente foi derrubada pelo instagram por violar as normas de nudez.

Créditos: Alexandra Cameron

Inconformada com a justificativa da remoção, a britânica criou uma campanha nas redes que ganhou força com a hashtag #IWantToSeeNyome (traduzindo para “eu quero ver a Nyome”), na qual os usuários repostavam a foto censurada, chamando a atenção para como outras modelos que se aproximavam mais do padrão magro e branco, como Kim Kardashian e Emily Ratajkowski, não recebiam o mesmo tratamento pela plataforma. “O algoritmo do Instagram é preconceituoso contra minorias, especialmente mulheres gordas e negras. Quando um corpo é incompreendido, eu acho que o algoritmo vai contra ele. Ele aceita a norma, o que na mídia representa mulheres brancas e magras como o ideal”, defendeu Nyome em entrevista ao The Guardian.

Depois de três meses, ela chegou até a receber avisos que sua conta podia ser excluída da rede social. Com o crescimento do movimento, Nyome conheceu vários casos de outras mulheres que tinham seu tom de pele e tipo de corpo. Elas também tinham passado pela mesma situação de censura na rede social. Nyome coletou cerca de 500 provas de outras imagens censuradas que não expunham nenhum tipo de genitália. Assim, ela decidiu escrever uma carta aberta ao CEO do Instagram, Adam Mosseri, juntamente com um abaixo assinado com mais de 22 mil assinaturas que incluíam as da ativista Jameela Jamil e da cantora Lizzo. Na carta, ela pedia o compromisso e cooperação da plataforma para analisar o funcionamento da própria política de nudez.

“Está abundantemente claro que o Instagram reproduz o mesmo preconceito racial que nossa sociedade, observando corpo negros e gordos como “demasiado” ou intragáveis. O aplicativo do qual você é Diretor Executivo, se orgulha de ser um espaço livre para que todos possam se expressar da forma que desejam. No entanto, há uma disparidade clara entre quem tem liberdade e quem é policiado. Se você é branco, rico e sexualmente atrativo de forma convencional, parece que você pode postar o quiser e da forma que quiser; mas se você faz parte de um grupo marginalizado, você está sujeito aos resultados de um algoritmo preconceituoso”, essa foi a mensagem de Nyome que reverberou pela rede social até o CEO.

A partir do dia 28 de outubro deste ano, entrou em vigor a nova política do Instagram e do Facebook que permite conteúdo onde mulheres abraçam, seguram ou acariciam os próprios seios – como forma de assegurar que todos os tipos de corpos sejam tratados de forma justa nos ambientes virtuais. Mesmo assim, Nyome acredita que a campanha que organizou com Alex Cameron, a fotógrafa responsável pela imagem censurada, e a autora Gina Martin está longe de terminar. Elas decidiram desenvolver um software para que os usuários censurados pela política de nudez postem seus casos e possam acompanhar e fiscalizar se a nova política está de fato funcionando.

Apesar dessa mudança ter acontecido rapidamente, ela realmente ainda não é efetiva para todos. Helena Cordeiro, de 24 anos, é formada em Ciências do Consumo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e, atualmente, é empreendedora da D’Troia Moda Feminina, uma loja de roupas femininas focada no público plus size.

Todo fim de ano, ela usa uma ferramenta do Instagram para promover os anúncios da coleção que é lançada nessa época e esse ano não foi diferente. Por ser um empreendimento focado em mulheres plus size, Helena faz questão de incluir modelos com corpos diferentes. O que ela não esperava, dessa vez, era sofrer da mesma censura que Nyome quando as imagens com uma modelo plus size foram recusadas no dia 17 de novembro.

“Para a nossa surpresa, pela primeira vez em seis anos, nós fomos censuradas pelo Instagram. Nós sempre fizemos anúncios com modelos plus size, mas dessa vez fomos barradas com a justificativa que o anúncio continha imagens que concentram excessivamente no corpo ou em uma parte que tem como foco o abdômen ou gordura abdominal – ou seja uma pessoa gorda – isso poderia fazer com que as pessoas se sentissem mal em relação a si próprias, além de violar a política fundamental que é promover uma comunidade global positiva.”, explicou, com decepção, a empreendedora.

O que mais chocou Helena na situação foi que todas as imagens com a modelo magra foram aprovadas e seguiram em circulação. Ela já tinha vivido algumas situações semelhantes e relatou que recebe comentários gordofóbicos constantemente nas mensagens privadas do perfil, assim como já teve a conta suspensa por denúncias. Helena sente que, como microempresa, ela tem obrigação de investir dentro da rede social para que aquele conteúdo seja valorizado, pois o algoritmo dá mais relevância a corpos malhados, vídeos de maquiagem, entre outros assuntos. “Eu não sei que tipo de mal-estar que poderia causar a uma mulher gorda, o fato dela estar sendo representada por outra em uma campanha publicitária. Porém, o Instagram entende isso como uma ofensa e algo negativo. O mais incrédulo disso tudo é que a gente vê várias publicações com conteúdo obsceno, violento, preconceituoso e nada disso é banido.”

Em ambientes virtuais que tendem a impulsionar perfis de mulheres que se aproximam do padrão eurocêntrico e que bombardeiam seus usuários com produtos de emagrecimento, campanhas como a de Nyome são fundamentais para democratizar o conteúdo que chegará a outras meninas. Segundo estudo da University College London (UCL) de 2019, meninas adolescentes são duas vezes mais propensas que os meninos a apresentar sintomas de depressão em conexão ao uso das redes sociais.

Os algoritmos das redes sociais refletem o controle sobre os corpos femininos de uma sociedade patriarcal. Os espaços midiáticos mudam e são digitalizados, mas os padrões de beleza permanecem de forma velada e dificulta a vivência de mulheres que não se enquadram nessa realidade. Quantas vezes Kim Kardashian teve sua foto sensual no espelho censurada por nudez? O Instagram está preocupado em vender uma realidade fictícia, corpos perfeitos que são produzidos, editados e maquiados. Cada vez mais as meninas procuram formas extremas para alterar seus biotipos e se encaixar em algo que não é natural. Então, como explica a escritora feminista Naomi Wolf: “Vence aquela que se acha bonita e desafia o mundo a mudar para realmente vê-la.”