Suporte do Staff

Equipes têm profissionais técnicos e de gestão

Uma equipe de e-Sports não é composta exclusivamente de jogadores. Para obter sucesso, os times contam ainda com equipes técnicas e de gestão que cuidam da parte logística e executiva para que os jogadores estejam em seus melhores estados para as partidas. No vídeo abaixo, conversamos com os membros responsáveis pelo lado técnico que fazem uma equipe funcionar: o CEO, o Coach (treinador), o Manager (gerente) e o Capitão.

Por um jogador saudável

Além da equipe técnica, vários times contam ainda com acompanhamento de fisioterapeutas e/ou psicólogos para manterem seus jogadores saudáveis, física e mentalmente. Conversamos com psicólogos e fisioterapeutas sobre os riscos a que jogadores de e-Sports estão sujeitos.

O caminho de um jogador de e-Sports pode parecer simples: precisa ser dedicado e seguir em busca do aperfeiçoamento próprio nas mecânicas de um jogo eletrônico. Nunca se acomodar com algumas metas alcançadas, ir atrás de novas metas de melhorar cada vez mais.  Em outras palavras, passar horas e horas sentado, jogando videogame. Ao contrário dos esportes tradicionais, não exige exercício físico, mas motor e mental. No entanto, assim como é fato que os cyber-atletas devem se esforçar quase tanto quanto outros atletas profissionais, eles também correm riscos para a própria saúde mental e física e, por isso, contam com profissionais das áreas de psicologia e fisioterapia para dar suporte à prática.  

O fisioterapeuta Othayr Melo cita alguns dos riscos físicos que podem afetar um cyber-atleta. “Devido à carga de treino excessiva dos movimentos repetitivos, principalmente nas falanges e no punho, podem ocorrer patologias como tendinite (inflamação do tendão, uma estrutura fibrosa, como uma corda, que une o músculo ao osso), artrose (doença que ataca as articulações promovendo, principalmente, o desgaste da cartilagem que recobre as extremidades dos ossos, mas que também danifica outros componentes articulares como os ligamentos, a membrana sinovial e o líquido sinovial), artrite (inflamação em uma ou mais articulações, que são as “juntas” entre dois ossos), entre outros sintomas”, explica.

O estudante de fisioterapia, Icaro Caldas, acompanha voluntariamente a equipe Light Storm Gaming (LSG) e menciona outros riscos para a saúde física do jogador. “O excesso de jogos pode trazer vários desconfortos físicos, como problemas de postura, tensão muscular. Tem jogador que, por passar muito tempo sentado, acaba ficando com uma postura errada, cria muita tensão acumulada e também pode vir a sofrer com tendinite nos membros superiores”, completa.

Fisioterapeutas nas equipes de e-Sports são responsáveis pela prevenção de lesões por esforço repetitivo (LER), por dificultar ao máximo que a lesão venha a aparecer durante os campeonatos, além de tratar uma lesão o mais rápido possível para o jogador ficar bem para os jogos e treinos. “A gente faz alongamento antes dos treinos. Utilizamos de quiropraxia, que é uma área que temos na fisioterapia para o ajuste corporal completo. Também procuramos realizar relaxamento muscular e sempre reeducar os jogadores da melhor forma possível para ficarem na postura correta”, explica Ícaro.

O jogador profissional não deve apenas tomar cuidado com sua saúde física, mas também com seu psicológico. Existe uma grande pressão sobre o jogador para ser habilidoso, pois para viver dessa profissionalização, ele tem que se destacar no cenário. Ser um atleta de e-Sports é uma carreira arriscada, pois seu desempenho no jogo e nos torneios são os principais pontos que irão gerar frutos para se manter, como achar um patrocinador, receber prêmios de torneios, etc. Tamanha pressão, que pode ser auto infligida ou por terceiros, pode trazer riscos de ansiedade, baixa auto confiança, coesão do grupo, particularmente em e-Sports de equipe como League of Legends, além de depressão, entre outros problemas psicológicos que podem afligir um atleta.

Para combater esses riscos, jogadores e equipes de e-Sports procuram assistência especializada. com a ajuda de psicólogos que  tratam do estado mental dos jogadores, ajudando a superar problemas que afetem seu psicológico, como a pressão do treino diário, estresse após uma derrota, além de problemas pessoais com família que não aceitas o profissionalismo em e-Sports, por exemplo.

IIgor Lemos é psicólogo especializado em tratamento e acompanhamento de pacientes que interagem em excesso com eletrônicos, tanto jogadores de e-Sports quanto pacientes enquadrados com dependência de videogames, além de outros sintomas psicológicos provocados com interações com eletrônicos, como cyberbullying e cybercondria (tipo de comportamento, que se caracteriza pela prática de chegar a conclusões apressadas (ou errôneas) durante a busca na rede de algum assunto relacionado à saúde). Ele cita o método que utiliza para acompanhar pacientes relacionados à pressão exercida com a prática de um e-Sport.

“O que trabalhamos com esse tipo de paciente é similar ao tratamento de pacientes concurseiros, pessoas que estão buscando um melhor rendimento profissional. Então trabalhamos com manejo de estresse, alteração de linhas de pensamentos de sabotagem, de pensamentos de que seu trabalho não tem valor ou de incompetência. Então, a gente reorganiza os aspectos cognitivos do paciente para que ele tenha um sucesso profissional maior. Se assemelha ao trabalho realizado de um coach em uma equipe. Mas não existe um formula especifica de como tratar o paciente, por que cada caso é diferente e depende do paciente, então cada tratamento acaba se tornando pessoal”, conta.

Giulia Sotero é estudante de psicologia na Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e voluntária na LGS, assim como também já foi voluntária na Black Bulls Gaming (BBG). No decorrer de suas experiências acompanhando equipes de e-Sports, ela percebe que é uma área onde a psicologia ainda precisa amadurecer um pouco mais mas, ao mesmo tempo, percebe que o acompanhamento psicológico ainda não é valorizado por diversas equipes e jogadores, sendo mais visto como algo procurado mais por reação a um sintoma já apresentado, do que um fator necessário para o bem estar dos jogadores. Mesmo com essa dificuldade, Giulia acredita que o mercado de e-Sports apresenta uma demanda crescente de psicólogos para a área e só precisa “amadurecer”, por parte dos jogadores e da psicologia, para mostrar resultados.

“Geralmente trabalhamos em grupo, visto que a LBS joga um jogo de equipe, então a gente faz dinâmicas de grupo, onde trabalhamos habilidades cognitivas que buscam trazer tanto diversão, como reflexão. A partir dessa reflexão vemos o que eles podem trazer aos treinos e aos jogos. Individualmente, trabalhamos dependendo da questão que o atleta vem apresentando”, conta.

Júlio Veloso, CEO da LSG, comenta o valor que vê em ter um fisioterapeuta e psicóloga acompanhando a equipe. “Ter essa assistência de um psicólogo e fisioterapeuta é muito importante para a equipe, por que a gente consegue fazer um acompanhamento psicológico de algum problema que nossos jogadores podem ter em casa, no trabalho ou na faculdade, se sofrem de algum problema que teve no passado e que possam influenciar no seu desempenho no jogo e esse acompanhamento é muito importante para nos ajudar a moldá-los a serem o melhor de cada um como pessoa e como jogador”, opina.

Já Pedro Luna é um dos dois coachs LSG e é responsável por instruir os jogadores da equipe e ressalta como a cobrança por resultados impacta o atleta. “Às vezes os próprios jogadores se pressionam e se cobram demais, o que pode vir a prejudicar seu desempenho dentro da equipe e no jogo. Ter esse acompanhamento de psicólogo e fisioterapeuta nos ajuda muito a aliviar essa pressão sob os jogadores.”

Apelidado de Gilgamesh no jogo League of Legends, Felipe Calabria é um dos jogadores mais jovens da LSG. Como jogador, dá grande valor à assistência de Giulia Sotero e Icaro Caldas como psicóloga e fisioterapeuta da LSG: “Não adianta de nada sermos o melhor time do mundo mas, no primeiro desentendimento, a equipe se desfazer. Então, um psicólogo pode nos auxiliar a evitar isso, ajudar a gente a se entender melhor, algo que demanda tempo e esforço. Não é toda família que vai concordar com um adolescente querer ser um jogador profissional. Isso gera desentendimento e conflito, e a psicóloga vai lhe ajudar a lidar com esses conflitos internos e externos. Além disso, os e-Sports exigem que você passe muito tempo sentado, muito tempo se esforçando na frente de um computador e o fisioterapeuta ajuda a não deixar isso fazer mal à saúde.”

Yuri Ramos, estudante de administração na UFPE, foi um dos fundadores da Virtus UFPE e é o manager da equipe. Biscoito, como é apelidado no League of Legends, cita o valor que nota em ter o acompanhamento do psicólogo Walker Lima Filho para a equipe. “Considero um psicólogo algo muito importante. Para o time dar certo no jogo diante da pressão de uma partida de campeonato, eles precisam ter calma e saber lidar com a adversidade. Um psicólogo geralmente é uma pessoa que passa essa tranquilidade. Consegue entender como cada jogador funciona para que, na hora que precisarem, poder atender cada um da melhor forma possível”.

Os psicólogos e fisioterapeutas, como os futuros profissionais Icaro e Giulia, recomendam que as equipes e jogadores de e-Sports procurem o mais cedo possível por um acompanhamento para seus cyber-atletas e não deixem para buscar atendimento apenas quando os atletas já demonstrarem algum sintoma. Ter saúde física e mental para o jogador não apenas oferece benefícios para a sua performance no jogo, mas também melhora seu entrosamento com a equipe, fãs e familiares. É recomendado que procurem atendimento em consultórios particulares e que tenham consultas pelo menos uma vez por semana, mas quanto mais encontros semanais, melhores serão os resultados.

Sotero deixa uma recomendação para os psicólogos que visam atuar no cenário dos e-Sports: “Arrisquem. Estudem o mercado. Tenham uma mente aberta. Eu sei que às vezes pensamos que é só um jogo, mas se for por esse lado, vôlei e futebol também são só um jogo. É muito mais que só um jogo. As pessoas tem paixão por isso e sonham em conquistar esse mercado, que tem crescido muito, numa rapidez que a psicologia não tem acompanhado. O psicólogo, assim como o fisioterapeuta, é muito necessário nessa área. Então o que eu digo é conheçam o mercado, abram a mente e venham que a gente precisa”, convida.