Cenário dos e-Sports no Recife

Apesar de ser um polo tecnológico, Recife tem cenário tímido nos e-Sports

 

Recife é um polo tecnológico de reconhecida excelência no cenário nacional pela presença na capital pernambucana do Porto Digital. O parque tecnológico criado em 2000, a partir de um esforço conjunto entre Governo, Mercado e Academia, hoje abriga 300 empresas do setor, a maioria delas situadas no histórico Bairro do Recife. Por três vezes, foi eleito o “melhor parque tecnológico/habitat de inovação do Brasil” pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec): a primeira vez em 2007, a segunda em 2011 e a terceira em 2015. Em 2014, o jornal britânico The Guardian destacou uma ação promovida pelo Porto, a “The Playable City” como uma das dez iniciativas que estão mudando a cultura no mundo.

Com um faturamento anual de R$ 1,7 bilhão, a presença do parque posiciona a cidade na ponta do desenvolvimento tecnológico do país, um ambiente que, teoricamente, deveria beneficiar e facilitar o crescimento de qualquer atividade ligada à tecnologia. Mas não é o que acontece no cenário dos e-Sports, esportes eletrônicos disputados em vídeo games e que vem se consolidando com um dos grandes ramos do entretenimento em nível mundial. “Aqui no Recife ainda temos um cenário muito incipiente nos e-Sports. A gente tem poucas ligas organizadas, de vez em quando sai alguma coisa no jornal e restrita à um público muito, digamos assim, elitizado”, diz Rodrigo Duguay professor e CMO da Kokku Games, empresa local de desenvolvimento de jogos. A opinião de Duguay não é a isolada. Entrevistamos membros da comunidade de e-Sports sobre sua perspectiva quanto ao cenário dos esportes eletrônicos na cidade:

“Aqui no Recife ainda temos um cenário muito incipiente nos e-Sports. A gente tem poucas ligas organizadas, de vez em quando sai alguma coisa no jornal e restrita à um público muito, digamos assim, elitizado”

Rodrigo Duguay

CMO, Kokku Games

Apesar de caminhar a passos lentos no Recife, o cenário de e-Sports no exterior se equipara ou até mesmo supera muitos esportes tradicionais, em termos de faturamento, audiência e movimentação financeira em prêmios e patrocínios. Em alguns países, já existem escolas e cursos especializados em formar atletas de esportes eletrônicos que disputam grandes torneios com premiações na casa dos milhões para os vencedores. Para se ter uma ideia, o campeonato mundial de DOTA 2, o The International, em 2018, teve uma premiação recordista de US$ 25.532.177,00. A equipe campeã do torneio, a OG, da Europa, recebeu US$ 11 milhões, cerca de R$ 43 milhões. Outros jogos, como Fortnite, League of Legends e Overwatch, tiveram torneios que figuram entre os mais milionários de 2018. Juntas, as cinco competições de maior premiação do ano distribuíram quase US$ 50 milhões, o equivalente a R$ 196 milhões.

Esses torneios atraem literalmente milhões de pessoas para assistir seus cyber-atletas idolatrados competirem em seu jogo favorito. Em 2018, os 5 torneios de e-Sports mais populares foram o Mid-Season Invitational, de League of Legends (947 mil espectadores, com mais de 29 milhões de horas assistidas na Twitch e YouTube), o FACEIT Major: London 2018, de Counter-Strike: Global Offensive (mais de 1 milhão de espectadores, com 47 milhões de horas assistidas), o ELEAGUE Major: Boston 2018, também de CS:GO (com pico de audiência de mais de 1,3 milhões e o acumulado foi de quase 50 milhões de horas assistidas), o The International 2018 de DOTA 2 (audiência de quase 1,2 milhão de espectadores e 58.2 milhões de horas assistidas acumuladas) e o Campeonato Mundial de League of Legends 2018 (com mais de 1,9 milhão de espectadores e 74.3 milhões de horas assistidas).

Os e-Sports continuam se expandindo no exterior e recebendo cada vez mais notoriedade da mídia, com torneios como os de LoL transmitidos em canais de TV especializados em esportes, como SporTV, ESPN e FOX Sports. É possível falar em crescimento no cenário local, mas em uma velocidade lenta, mesmo com o potencial trazido pela presença do Porto Digital.

Top 5 torneios de 2018

Espectadores (em milhões)

Mid-Season Invitational, de League of Legends

FACEIT Major: London 2018, de CS:GO

ELEAGUE Major: Boston 2018, de CS:GO

The International 2018 de DOTA 2

Campeonato Mundial de League of Legends

Horas assistidas (em milhões)

Mid-Season Invitational, de League of Legends

FACEIT Major: London 2018, de CS:GO

ELEAGUE Major: Boston 2018, de CS:GO

The International 2018 de DOTA 2

Campeonato Mundial de League of Legends

“Acho que o que tem que acontecer com os e-Sports é o aumento da audiência e seu aumento passa pela popularização, no sentido de acessar não somente classes de menor poder aquisitivo, mas também de atrair pessoas sem tanto conhecimento específico”, diz Duguay sobre o que pode ser feito para alavancar os e-Sports no Recife. No vídeo abaixo, jogadores e executivos fazem sugestões de o que pode alavancar este mercado no Recife:

Embora cenário recifense dos e-Sports ainda não tenha alcançado todo seu potencial, já exportou atletas habilidosos para competir em grandes torneios no exterior. É o caso de Epitácio de Melo, também conhecido como Taco, um dos maiores jogadores de Counter-Strike: Global Offensive do mundo. Nascido no Recife, Pernambuco, Taco começou sua carreira na equipe Dexterity Team e já jogou pela Luminosity Gaming e SK Gaming, onde conquistou dois títulos de Major, ao lado estrelas como Gabriel “Fallen” Toledo e Marcelo “coldzera” David. Depois de defender a Team Liquid, o atleta hoje mora na Califórnia, nos Estados Unidos, e voltou a jogar ao lado dos brasileiros com a camisa da Made In Brazil (MIBR). Mesmo com a agenda cheia, precisando viajar muito pelo mundo para treinar e competir, Epitácio nos concedeu uma entrevista em Q&A:

ProGamers: Olá, Epitácio. Poderia se apresentar para nós?

Epitácio de Melo: Olá! Meu nome é Epitácio Pessoa de Melo. Nasci no dia 24/01/1995, em Recife-PE. Comecei a jogar Counter-Strike (CS) com meus primos e irmãos em Recife como hobby.

P.G: Poderia contar sobre como começou sua carreira, as escolhas que precisou fazer, os desafios, etc.?

E.M: Sempre foi um hobby pra mim. Eu sempre consegui conciliar estudos, com o jogo e vida social com meus amigos. Depois de um tempo jogando como hobby, passei a disputar pequenos campeonatos e a receber elogios de outros jogadores do cenário. Isso me fez perceber que eu poderia ter talento pra coisa. Foi quando entrei no meu primeiro time, a Dexterity Team, e venci meu primeiro campeonato nacional. A brincadeira passou a ser mais séria e conciliar com as outras coisas da vida (universidade/amigos/etc.) passaram a ser muito mais difícil. Abdiquei de muita coisa na adolescência. Viajava pra São Paulo sozinho pra jogar campeonatos e treinar com meu time.

P.G: O que foi que lhe levou a querer ser profissional no Counter-Strike, especificamente?

E.M: Percebi que tinha potencial e amava jogar. A partir do dia que virei profissional, sempre dizia pra mim mesmo que um dia eu seria campeão mundial.

P.G: Como é a sua rotina como jogador profissional?

E.M: Temos diversas obrigações que nos impedem de criar uma rotina fixa. Basicamente trabalho de 8 a 10 horas por dia, divididos entre treinos com a equipe, treinos individuais, trabalho com o staff da equipe (psicólogo, treinador etc) e ações para patrocinadores.

P.G Para você, qual o caminho da profissionalização do jogador amador para o profissional?

E.M: Ter talento é importante e é o primeiro passo. Depois entender que é um longo processo e que demora para mostrar resultados. Durante o processo você vai ter que abdicar de diversas coisas, e tem que entender e saber lidar com isso. Depois, vai depender do quanto você se dedica, do quanto você treina e do que você está disposto a passar para chegar no nível profissional.

P.G: Você recebe algum acompanhamento médico, físico e/ou psicólogo?

E.M: Recebemos sim. Recebemos acompanhamento de psicólogo, treinador de performance e academia, que são fornecidos pela organização.

P.G: Qual a importância de ter esse(s) acompanhamento(s) para os jogadores profissionais?

E.M: Quanto maior e melhor você se torna, mais pressão e compromissos vai acumular. Passamos muito tempo treinando e quando não estamos, estamos pensando no jogo ou jogando algum campeonato. É de extrema importância que tenhamos profissionais nos acompanhando e auxiliando em diversas áreas da nossa vida.

P.G: Quais são os torneios internacionais mais importantes de Counter-Strike? E qual é o torneio brasileiro mais importante do jogo?

E:M: Os mais importantes são os campeonatos mundiais, conhecidos como Majors, que acontecem 2 vezes por ano e são os de maior prestígio de Counter-Strike. Eu não sei qual o campeonato mais importante no Brasil no momento, pois há muito tempo não acompanho ou jogo no cenário brasileiro.

P.G: Na sua opinião, quais são os gêneros de games que podem ser considerados e-Sports?

E.M: Existem vários gêneros: luta, FPS, MOBA, automobilismo, são os que mais vejo.

P.G: Qual a sua visão sobre o cenário de e-sports no Brasil? O que você vê de positivo e de negativo?

E.M: O cenário de esportes eletrônicos no Brasil tem crescido a cada dia, mas ainda tem muito caminho pela frente para chegar ao nível que vejo no exterior. É papel meu também auxiliar nesse crescimento.

P.G: Como é a sua perspectiva sobre a comunidade dos e-Sports no Brasil? (jogadores, fãs, etc)

E.M: Creio que é uma paixão que vem sendo criada e conquistada. Ainda é algo muito novo, mas tenho convicção que num futuro próximo será maior que os esportes tradicionais.

P.G: Os e-sports estão sendo discutidos como uma futura modalidade nas Olimpíadas. Para você, esportes eletrônicos podem ser classificados como esporte?

E.M: Acho que é uma discussão importante. Eu considero sim os e-Sports como esportes. Posso dizer que a nossa rotina de treinos como jogadores de esportes eletrônicos é tão pesada quanto a de um atleta de qualquer outra modalidade das Olimpíadas.