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Hip Hop de A a Z

Conheça o significado dos principais termos usados por praticantes e admiradores da cultura hip hop

BATALHA: disputa de apresentação entre duas MCs ou dançarinas na qual um júri ou a plateia decide quem vence

BEAT: batida, fundo musical sobre o qual as rappers ou MCs rimam

BEATBOX: batida improvisada feita com a boca pela MC ou DJ

BREAK: dança de rua performada por bgirls e bboys

BGIRL: dançarina de break

CYPHER: música composta e cantada em conjunto por um grupo de MC’s. Geralmente são registradas também em vídeo

CREW: também chamados de posses, são os grupos que praticam os elementos do hip hop juntos ou separados. São muito comuns as crews de grafite

A grafiteira Naara Almeida colore um painel durante o evento Vamos de Preto, no Pátio de São Pedro

DISS: música escrita com o intuito principal de atacar ou provocar outra MC

DJ: disk-jóquei, responsável por selecionar e reproduzir as batidas

EP: trabalho que costuma reunir de quatro a oito músicas. Pode funcionar como espécie de prévia de um álbum

FLOW: ou levada, a maneira particular da rapper encaixar suas rimas em uma batida

FREESTYLE: rimas improvisadas, feitas, geralmente, durante batalhas de MCs

K7: fita de rolo através das quais foram compartilhadas faixas musicais no início do movimento

MC: mestre de cerimônia, pode ser cantora, cantor ou rapper

MÉTRICA: forma de organização dos versos numa música. Quanto maior o encaixe e fluidez entre flow e métrica, mais admirada tende a ser a MC

MIC: microfone

MIXTAPE: compilação de músicas de um ou mais artistas, podendo ser classificadas e agrupadas por caraterísticas particulares

PICK UP: equipamento, espécie de mesa de som, usado pela DJ

PUNCHLINE: verso contendo indireta frequentemente direcionada a outra MC. Costuma ter informações que tornam o destinatário facilmente identificável entre fãs do gênero

RAPPER: ou MC, quem canta rap

SAMPLER: equipamento capaz de armazenar e reproduzir amostras de áudio, combinando-as ou não

SLAM: campeonato de poesia no qual as concorrentes apresentam poesias autorais, previamente feitas, sem acompanhamento musical ou ajuda de acessórios, em até três minutos, a serem julgadas e classificadas com notas pelo júri

SLAMMER: quem participa do slam recitando poesia autoral

SCRATCH: som produzido quando o disco de vinil é movido para frente e para trás

TRACK: uma música, podendo também denominar uma faixa entre várias em um conjunto, como o CD

Sereias do mangue

A 8.0.8 Crew faz rap de mina para todo mundo ouvir

Recife foi o ponto de encontro entre Lilian Araújo, 26 anos, e Jnany Cavalcante, 23 anos. Uma capixaba e uma carioca que viveram a infância em Ribeirão Pires, um município de São Paulo com menos de 78 mil moradores, e se conheceram em uma capital com mais de 1,5 milhão de pessoas. “Não deu tempo”, declara Lilian. Agora elas não se perdem, mantêm o sincronismo do grupo através das redes sociais. Lilian é Lilo, Jnany, Nany Ninee, e Iara Fernandes, 18 anos, a DJ Afrodite. Elas vivem na RMR enquanto Mylena Alves, bgirl, e Alessandra Carvalho, artes visuais, tocam os projetos da Crew no interior do estado.

“Rap de mina quando eu falo não é rap que mina escuta, é rap que mina faz, rap que mina canta, que rima, não que tá só no refrão” – Nany Ninee

O duplo espelho de vênus está presente na marca da 8.0.8 e é frequentemente reproduzido pelas suas integrantes. Esse triângulo representa o gênero feminino unido

Nany veio para Pernambuco com a família aos 8 anos, em busca da tranquilidade do Agreste. Em Belo Jardim teve suas primeiras aulas de música na Filarmônica da cidade. Ganhou gosto pelo hobby, cantou rock, reggae e coco até decidir, aos 16 anos, que a música seria sua profissão.

Lilo é filha de pai músico e ator. Foi dele que recebeu o estímulo para aprender música aos 12 anos, ingressar na poesia aos 14 e entrar para o teatro aos 15. Viveu em São Paulo em contato com a cultura nordestina, coco, maracatu e cavalo-marinho, até ficar saturada da metrópole. Há dois anos veio para o Recife estudar História na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Iara é pernambucana, moradora do Ibura e uma das poucas mulheres DJs no hip hop recifense. Teve o primeiro contato com o rap aos 5 anos enquanto ouvia Gabriel O pensador escondida atrás do sofá com o diskman dos pais. “Eu não entendia a mensagem social, mas já gostava da sonoridade”.

O grupo de amigas com nome de música funk evoluiu para a 8.0.8 Crew. A mensagem delas é clara na música Não Prolonga

Não prolonga!
Aqui é sem delongas!
Cansei do seu showzinho, vou ocupando com reponsa
Se liga nessa bronca
Aqui num é faz de conta
Se acuso teu machismo é porque tenho compromisso
Não desafia a banca, porque até o rap nois tomou de assalto
E foi por falta de espaço
Com as mina tamo na contenção
Agora é tudo pé no peito, sem massagem
Aqui não tem brothagem pra você
Machista, vacilão!

Confira o MIC Aberto da 8.0.8 Crew

MULHERES PRODUZINDO MULHERES

O reconhecimento da 8.0.8 como profissionais veio com a parceria da Aqualtune Produções. Lenne Ferreira, jornalista, e Tássia Seabra, produtora cultural, já acompanhavam o trabalho da crew e vice-versa. A admiração mútua levou há uma negociação, que durou três meses, até que a conversa virasse contrato. Assim conheceram Iara, que já trabalhava com a Aqualtune, e se juntou a 8.0.8 Crew em outubro.

Quando vão aos shows com Lenne e Tássia sentem a diferença no tratamento, Lilo explica “Quando é com elas tem um tratamento todo especial, porque elas são mulheres, negras, periféricas, então, elas sabem da demanda”. O desrespeito em shows vai da falta de água a pedidos de show sem cachê para “fortalecer o movimento”. “Se vai pagar cachê eles chamam os caras, mas quando vêm falar com a gente, a maioria das propostas, é tipo Vamo fortalecer a favela”, expõe Iara, “a questão que incomoda é que eles usam o representar a favela pra representar eles”.

A sincronia fez a agenda encher, os planos para 2018 incluem clipe, lançamento de EP e uma cypher com mulheres do Nordeste, além da grata surpresa de uma parceria com Bione, semi-finalista do Slam das Minas PE. “Prepara que em 2018 vocês vão ver muito a cara da gente”, Nany manda o recado.

Do Brasil ao Nordeste, o poder de adaptação

Mulheres inseridas na cultura hip hop se enxergam como importantes agentes de mudança social

Se, nos Estados Unidos, contextos políticos como a luta pelos Direitos Civis fizeram com que a juventude negra reconhecesse no hip hop uma arma cultural em nome da busca pelo conhecimento, por aqui, o movimento norte-americano ganhou moldes abrasileirados, na medida em que passou a ser usado para questionar problemas específicos da realidade do País. O mesmo aconteceu no contexto nordestino e, mais ainda, entre as mulheres rappers.

A narrativa de jovens mulheres rappers foi objeto de estudo das professoras Maria Natália Matias Rodrigues e Jaileila de Araújo Menezes, em pesquisa apresentada à Universidade Federal de Pernambuco. Ao analisarem o conteúdo das composições de autoria dessas artistas, ambas entenderam que, mulheres inseridas em ambientes abertos à cultura hip hop, quando leem letras que abordam recortes de gênero, raça e classe, passam a se enxergar e a se reconhecer como figuras importantes.

Como artistas, passam a ter estímulo para ler, pesquisar, escrever, criando o costume de estudar continuamente, algo que muitas vezes não é introduzido a sua realidade por meio da educação formal. Há, então, o sujeito se reconhecendo como ator político, capaz de não apenas consumir, mas compartilhar informação, produzindo conhecimento.

“Num País como nosso, no qual a escola ainda não inclui a todos, para jovens de periferia, a saída tem sido a inserção em movimentos culturais. Um deles é o movimento hip hop”, analisa Natália Rodrigues.

A professora Natália Rodrigues viu nas letras de jovens rappers detalhes sobre a vida pessoal das artistas relacionados às dificuldades de permanecer no hip hop

A questão racial aparece atravessada na vida das mulheres porque as letras majoritariamente abordam as violências maiores sofridas pelas negras. A desistência de seguir com a carreira  artística é outro ponto frequente, porque além de inseridas numa cultura periférica, na qual a remuneração quando da realização de um show, por exemplo, é mínima ou muitas vezes sequer existe, as MCs esbarram em jornadas duplas de trabalho, já que financeiramente há a necessidade de trabalhar num emprego formal e várias delas são donas de casa.

A maternidade, quase sempre solo, sem grande ajuda do pai de seus filhos ou companheiro, também é fator determinante na decisão de muitas por pausar ou abandonar de vez o rap. A baixa escolaridade, refletida no acesso à empregos de baixa renda, é outra dificuldade apontada.

“Como quem realiza os eventos de rap também não tem acesso a grandes bens materiais, o cachê, muitas vezes, não existe. Chegam a faltar itens básicos, como água no camarim. Os artistas comparecem, como eles mesmos afirmam, para ‘fortalecer a cena'”, afirma Natália.

“Essas mulheres são guerreiras” – Natália Rodrigues, professora universitária e autora da pesquisa Narrativa de Jovens Mulheres Rappers

ALTERNATIVA

A popularização da internet, junto a maior facilidade para baixar programas e batidas para musicar as letras é apontada como método de burlar tais dificuldades. Também como plataforma, é a internet quem possibilita atualmente maior facilidade de divulgação das músicas, sem que precise haver atravessadores, como as grandes gravadoras, ou a necessidade da distribuição física de CDs, o chamado ‘de mão em mão’. O material, portanto, tem a possibilidade de chegar mais rápido e a um maior número de pessoas.

“Como o rap é música autoral, no entanto, não há a possibilidade de se fazer o que acontece com ritmos como o samba ou a MPB. Uma rapper não têm como ir a um barzinho, cantar um cover e ganhar um cachê bacana. Elas são umas guerreiras porque conseguem se manter apesar de todas as dificuldades”, arremata Natália Rodrigues.

Os cinco elementos que compõem a cultura hip hop:

Donas da p**** toda

Um dos pioneiros entre os grupos femininos da cidade, o agora quarteto está de volta à ativa após pausa de dez anos

Mãe das gêmeas Luara e Luane, de 18 anos, e de Samara, de 16, no meio da movimentação para trazer o grupo Donas de volta, Mariana Oliveira, a MJ, se viu mãe também de mais uma mulher, a pequena Dandara, hoje com sete meses. Veterana entre as MCs recifenses, ela é referência de pioneirismo para quase todas as entrevistadas do Salve Todas. “Fui mesmo a primeira a pegar o microfone e cantar rap aqui”, afirma MJ.

Munida de discurso em prol da emancipação feminina, Mariana, 35 anos, tem uma história no hip hop iniciada na adolescência quando, aos 13, em meio a rodas de skate, ganhou uma fita K7 com gravações do grupo recifense Faces do Subúrbio e do Câmbio Negro (de Brasília), ambos de grande importância no cenário nacional.

Sem se encaixar no padrão da família de classe média a qual pertence, encontrou nas rodas de rap um lugar próprio, se reconhecendo enquanto mulher negra, mas esbarrou na predominância de vozes masculinas. “As meninas iam às rodas para dançar, rebolar, paquerar os caras”, conta a MC.

Parceira de MJ nos vocais do Donas, Fabiana Coelho fez trajeto semelhante, a partir dos bailes de hip hop apresentados pelos amigos do bairro da Madalena, bairro da zona oeste do Recife. Através de uma amiga, chegou até Mariana, em meados de 2004, com papel e caneta em punho para apresentar alguns versos autorais. A química instantânea deu origem a shows pelo Brasil, um CD demo, homônimo, com oito faixas, e a quinta colocação entre cerca de 100 músicas concorrentes do extinto Festival Hutúz, o mais importante voltado especificamente ao gênero já organizado no País.

A pausa veio por volta de 2006, movida pelas demandas de casamentos e filhos – Fabiana também é mãe de um adolescente e de uma garotinha de sete anos. Mas a música nunca foi deixada totalmente de lado. Formadas assistente social e administradora de empresas, respectivamente, Mariana e Fabiana conciliaram os estudos com as rimas sempre afiadas, seja no engajamento em trabalhos sociais onde a poesia se faz presente ou nos escritos rabiscados num canto ou outro.

Foi essa inquietação inerente a quem entra no rap que encaminhou o retorno, iniciado há cerca de um ano e recentemente abraçado pela produtora Pro4. Dela, veio a oportunidade de se apresentar durante o Festival de Inverno de Garanhuns 2017, para um palco Mestre Dominguinhos lotado.

“Estamos num momento de desorganizar para organizar”, sentencia Mariana Oliveira, a MJ

Ouça a participação de Mariana MJ na Roda de Conversa

 

FUTURO

Sentindo falta de composição melódica nas rimas, Mariana e Fabiana abriram seleção, ainda em 2016, com o intuito de encontrar uma cantora para o Donas. Aline Bilar chegou para somar pela vontade de que houvesse uma certa malemolência à poesia falada. À mesma época, o experiente DJ Dagga era convocado a passar para Adriana Pax, DJ residente de uma casa noturna no bairro da Boa Vista, lições de como discotecar com vinis.

A intenção a partir de agora é mesmo potencializar o Donas como agente 100% feminino e combativo às opressões sociais. “A gente começou há muito tempo, quando a internet não era como hoje. Muita gente se queixa de procurar nossos trabalhos e não achar. Por isso, queremos investir nas redes sociais, gravar músicas, clipes, preparar um disco, para que as pessoas encontrem a gente”, arremata MJ.

Confira o MIC Aberto do Donas

As batalhas de Ranne Skull

É nas rodas de improviso de rima que a jovem de cabelo colorido reivindica seu espaço

Cabelos cor-de-rosa, tatuagens por todo o corpo, voz de menina. À primeira vista, Ranne França, a Ranne Skull, 29 anos, pode passar uma imagem agressiva aos mais conservadores. A verdade é que muitas nuances se misturam para formar a MC, tatuadora, grafiteira, modelo e mãe que Ranne apresenta quando lhe perguntam sobre quem ela é.

Nascida no Pina, Zona Sul do Recife, cresceu ouvindo rock e bossa nova, até que o período de sete anos vividos, entre 2007 e 2014, na Praia de Pipa, Rio Grande do Norte, traçaram estratégia para que conhecesse o rap. Lá, desenvolveu um projeto em bares e restaurantes para divulgar o trabalho como tatuadora. Se sentindo limitada por tempo e técnica pelo trabalho com pincel, foi ser aprendiz de grafiteira com amigos da comunidade do Bode, para aprender a grafitar.

Com eles, conheceu a Batalha da Maresia, disputa de improviso de rimas. Quatro meses depois, voltou definitivamente ao Recife, indo trabalhar num estúdio de tatuagem onde o freestyle era rotina entre os colegas. Assim, entrou de vez para o mundo das batalhas, a princípio na Rinha dos Monstros, e, posteriormente, a da Escadaria, onde fez casa.

“Houve uma edição da Rinha dos Monstros, no Marco Zero, a primeira de grande porte que eu participei. Fui a primeira menina a ganhar e senti uma coisa muito boa quando eu falava minha opinião e ouvia as pessoas gritando o meu nome”, relembra Ranne Skull

Ouça a participação de Skull na Roda de Conversa

Após dois anos de participação frequente, sente que tanto o comportamento dos oponentes quanto a reação da plateia tem mudado em relação a ela. Muito pela insistência em ocupar lugares dominados pelos homens.

Há alguns anos, descobriu-se médium da doutrina do amanhecer, para a qual presta caridade espiritual no templo de três a quatro vezes por semana. Com a religião, encontrou a paz espiritual que fornece o equilíbrio necessário para continuar enfrentando – e ganhando muitas – das batalhas de rimas e de sobrevivência que encara com maestria.

Confira o MIC Aberto de Ranne Skull

Os caminhos do Arrete

Formado por três experientes MCs, o grupo tem colhido os frutos da longa jornada trilhada por elas

Quem observa a movimentação nos bastidores de um show do projeto Arrete percebe que ali a música é componente central, mas não único entre as três MCs que o compõem. Nina Rodrigues, Yanaya Juste, a Ya, e Weedja Leite caminharam separadas, por mais de uma década, até que repousassem na parceria e maturidade com que o Arrete as vem presenteando há quase cinco anos.

O primeiro contato de Nina com a música foi através da família. Todos são da Paraíba e, nas viagens de férias até lá, as rodas de samba predominavam. A sanfona que acompanhava a mãe desde os 15 anos ainda existe, os encontros musicais também. Com o ex-padrasto, aprendeu a amar o teatro, dos ensaios das peças menores às óperas apresentadas no Teatro de Santa Isabel. Há 15 anos, então com 20 de idade, conheceu militantes da cultura negra, na mesma época em que foi apresentada ao hip hop. Participando do coletivo Conspiração, junto a outros tantos MCs, passou a integrar o primeiro grupo de rap, o Magia Negra. Pouco depois, já no Na Base da Resistência, ganhou companhia de duas mulheres, Preta Anna e Yasmina Juste, irmã de Yanaya.

Junto a Preta Anna, pode distinguir e amadurecer o que amava na cultura de hip hop. “Foi quando entramos para o Confluência que veio toda uma gama de conhecimento. Aprendi muito sobre a cultura popular nordestina”. Rimas, métricas, cenários do imaginário local serviram de combustíveis para que compartilhasse com o mundo as letras que já vinha compondo. Sobre o que permeava os escritos, ela responde, entre um suspiro e outro: “medo”.

“Os caras impunham que a gente cantasse de calça larga, se portasse como eles. Se, em algum momento, eu tentasse sensualizar ou algo do tipo, quando descia do palco ouvia deles que não deveria mais fazer aquilo. Fui muito silenciada. Tenho calos nas cordas vocais pelo esforço que fazia para engrossar o tom e impor respeito. Hoje, se quiser, eu posso ‘cantar grosso’, mas tenho consciência de que não me é mais imposto”, detalha Nina

Enquanto articulava as entradas, saídas e as participações em tantos grupos, Nina se dedicava ainda à faculdade de gastronomia. A conclusão do curso coincidiu com uma pausa na carreira artística. Fez o último show em 2012, grávida de quatro meses de Sofia. De Yasmina, companheira no Na Base da Resistência, herdou a amizade de Yanaya, início do desenho do que viria ser o Arrete.

Leia também: Preta Anna: “O rap salvou a minha vida”

FEMINISMO

Filha da brasileira Tâniamara Pimentel, filósofa, e de Jean-Pierre Juste, francês e artista plástico, Ya saiu encantada com o primeiro show que assistiu do Na Base da Resistência, por volta de 2002. Tinha 13 anos. Weedja já era amiga próxima e a convidou para cantar rap no Irmanadas, grupo onde um homem escrevia as letras.

“Eu achava um absurdo, queria escrever o que eu iria cantar. Mas quando entrei tinham pouquíssimas meninas, as primeiras que eu vi no palco foram Nina, Preta Anna e minha irmã. É uma montanha-russa (a existência de mulheres no rap), tem hora que o movimento tá cheio e hora em que há ninguém por conta da vida que a mulher tem, ser mãe, sustentar a casa. As coisas hoje caminham mais rápido e, para mim, quanto mais mulher, melhor”.

Em 2007, Ya se mudou para a Paraíba, onde permaneceu atuante, sendo premiada como artista revelação durante o 1° Festival de Rap do estado. Cinco anos depois, a decisão de voltar para o Recife foi fuga de um relacionamento abusivo. Nina, então, a apresentou aos conceitos feministas que a fizeram compreender tudo pelo que tinha passado e as opressões de gênero que permeiam até a cultura que abraçou.

Formada em Design de Moda, Ya é quem assume as maquiagens, figurinos e visual irretocável dela e das companheiras. “Entrei no hip hop nessa divisão de águas de que se a gente quiser se maquiar, por exemplo, podemos. Trabalho muito a estética porque fui muito oprimida e poder fazer isso é libertador. A gente também acompanha a moda que sempre esteve ligada ao hip hop, tá aí o Emicida (o MC paulistano tem uma marca de roupas e participou da última edição da São Paulo Fashion Week). A diferença é que tentamos sempre nos adaptar aos símbolos nordestinos”.

A experiência violenta pela qual passou foi mote para que escrevesse a letra de Arrete Não, música que involuntariamente acabou dando nome ao projeto. De mãos dadas a Nina e a Weedja, gravou o videoclipe que, em abril de 2013, anunciava que elas estavam na ativa novamente.

BRANQUITUDE E LUGAR DE FALA

Mulheres brancas, Ya e Nina têm consciência que o fenótipo de ambas gera olhares críticos entre os mais puristas. A opção pelas roupas e maquiagens da moda, os cabelos loiros de Yanaya, já renderam ao Arrete a pecha de “grupo de YouTube”. Elas rebatem.

“Sou branca, moro em Boa Viagem, por isso acham que sou rica, que não posso estar no hip hop. Mas eu tenho uma luta legítima, apoiando a todos, respeitando e sabendo dos meus privilégios. Sei da legitimidade do hip hop e respeito muito isso. Mas a poesia é aberta e não quero e não vou me calar. Por outro lado, as pessoas não têm notado nossas mulheres negras e isso me incomoda”, diz Nina Rodrigues

Se de Ya vem o amor pelo ragga – tipo de música eletrônica oriunda da Jamaica, de Nina, o encantamento pela poesia popular nordestina, o baião, o rock, é de Weedja Leite, filha orgulhosa da periferia que sai a atenção aos ritmos majoritários por lá, como o brega e o pagode. “Eu fui criada e moro na favela (o bairro de Cajueiro Seco), nunca saí de lá. O rap veio para falar desse lugar e se expandiu para outras coisas. Não somos ‘garotas do YouTube’, tivemos dificuldades. Hoje existe uma cena porque a gente se fortaleceu”, diz Weedja.

O Tio Mô dançava break em Prazeres, bairro de Jaboatão pioneiro na dança de rua em Pernambuco. O irmão, Wellinton ‘Paçoca’, é MC do Erupção do Rap. Ela cresceu no meio disso tudo e, não por menos, foi uma das primeiras a ganhar campeonatos individuais locais de break, ainda no fim dos anos 1990. Um amigo convidou a cantar, ela aceitou e desde então não saiu mais do hip hop.

A primeira entrevista de Weedja para o Salve Todas aconteceu apenas 25 dias após ela dar à luz ao pequeno Benjamin, durante o show no festival Sonora – Ciclo Internacional de Compositoras, em Olinda. O filho havia ficado em casa e, no olhar da mãe, uma mistura de orgulho e preocupação. “Eu não posso demorar, preciso amamentar meu bebê”. Quase dois meses depois, voltava de vez à rotina, em uma apresentação no bairro da Várzea, com uma força que só as mães, mães artistas, conseguem ter. “Ele é meu filho e daqui para frente quero que ele me acompanhe onde eu for”.

Confira o MIC Aberto do Arrete

SEMPRE COM A FROTA

Essa mistura potente de referências tomou forma concreta em julho de 2017, com o lançamento de Sempre Com a Frota, primeiro álbum do Arrete. O hibridismo está presente desde abertura, a faixa Poetizar, com forte referência à embolada. O disco teve apoio do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) e está disponível para audição em plataformas de streaming. Já a versão física será distribuída gratuitamente na Colônia Penal Feminina do Recife e têm o encarte todo traduzido para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Com o resguardo do DJ Clécio Rimas e das dançarinas Duda Serafim e Ayara Martins, o Arrete têm se desdobrado para atender a todas as demandas do novo passo, misto de conquista e maior responsabilidade.

O combate incisivo de Lady Laay

Representante da pungente nova cena de mulheres MCs do Recife, ela faz do microfone arma contra várias opressões

Não é raro que um artista faça valer o direito à liberdade criativa para invocar uma persona que o represente. Se, durante as oito horas diárias em que se apresenta como programadora web numa empresa de tecnologia Elaine Silva faz uso de seu nome de batismo, quando porta um microfone a figura muda de nome e expressão. Literalmente. A voz mansa e o jeito simpático se transmutam em potência. Aí nasce Lady Laay, a Audaciosa.

Aos 24 anos e morando na Cidade Tabajara, em Olinda, a garota ingressou no hip hop através do breakdance, que conheceu ainda na escola, no bairro de Vila Dois Carneiros (Jaboatão dos Guararapes), há quase uma década. Desde o primeiro contato com a cultura de rua, enfrentou batalhas várias, como numa metáfora indesejada com as disputas de danças e rimas inerentes ao novo ambiente. O machismo, adversário principal, se fez presente desde o início, na resistência vinda dos homens do movimento e da própria família.

“Em casa, ele (o machismo) tinha tom de proteção”, conta. “Minha mãe chegou a jogar minhas coisas do break no lixo, questionou se eu tinha ‘me tornado’ lésbica por conta das roupas largas, dos bonés. O hip hop me ajudou a mostrar a meus pais que eu poderia fazer o que quisesse”, relembra.

Leia também: Codinome Audaciosa

A dança foi caminho para que se encantasse pelas tintas e pinceis do grafite, levando-a a finalmente encontrar na música o canal para expressar seus inconformismos. Em Quantos Inocentes Ainda Vão Sangrar?, o primeiro rap que escreveu, aborda o genocídio da juventude negra e periférica. “Cria da rua / à própria sorte largado / desde a barriga da mãe seu destino já estava traçado / seu fardo? ser analfabeto, preto, pobre, favelado / seu destino, amanhã, sem motivo, ser baleado”. Lançada como single, a faixa ganhou ilustração na qual uma criança negra tem um revólver apontado para a cabeça.

“Desde mais nova eu tinha um senso de justiça social, uma revolta com a desigualdade que eu via e vivia. Quando escutei o primeiro rap, dos Racionais MC’s, percebi que aquilo não era só entretenimento. Havia um tom político que não existia nas outras músicas e todo um movimento social por trás”, relembra Lady Laay

Dos cinco elementos da cultura hip hop, Laay considera que é no rap onde se reproduz mais misoginia. Dos ataques que presenciou, destaca um específico, há cerca de um ano. Durante os preparativos para um debate sobre a política nacional, realizado numa universidade pública da capital, os organizadores foram questionados sobre a falta de artistas mulheres na programação. As respostas irônicas, iniciadas nas redes sociais, se estenderam ao dia do ato, quando, numa roda de diálogo, as participantes tiveram o som do microfone desligado.

A resposta ela entregou na letra de DISSrespeito À Mulher, cujo videoclipe atingiu mais de 40 mil visualizações no YouTube, número marcante se comparado a média anterior, de 4 mil. O título é um trocadilho com o termo “diss”, dado aos raps escritos com a intenção principal de atacar um outro MC e bastante comum entre os rappers homens. Em 2017, o tema que mais motivou as réplicas e tréplicas entre eles foi a falta de visibilidade dada aos artistas nordestinos em relação ao espaço ocupado pelos do eixo Rio-São Paulo. A partir disso, a música de Laay aponta outra questão: “Trouxe visibilidade pra cá? / mas só pros cara e não pra nós / mulher ainda tá no escanteio / ainda tentam calar nossa voz”.

Confira o MIC Aberto de Lady Laay

“O inimigo é outro”

A mudança cultural da juventude norte-americana, negra e periférica

Mônica Costa, professora da UFPE, pesquisa sobre o movimento social hip hop

Nos anos 1960 os jovens de classe média e universitários adotavam o estilo de vida hippie, os brancos que ouviam música negra faziam parte da turma do sexo, drogas e rock’n roll, enquanto isso, as periferias conviviam com a violência, o preconceito e o esquecimento dos órgãos públicos. Todos tinham motivos para protestar. Na mesma época, a contracultura permeava o espírito da juventude com sua contestação social.

Por mais de 40 anos a polarização esteve presente na ordem mundial. Durante a Guerra Fria, as dualidades se tornaram constantes, eram eles ou nós, capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente. Essa divisão também era sentida em âmbito nacional pelos norte-americanos, mas era uma questão racial. A separação entre eles acontecia em bairros, escolas, ônibus e banheiros.

O hip hop nasceu nos anos 1970, inspirado pelos protestos durante o Movimento pelos Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos. O intuito da mistura de elementos era criar uma alternativa para a violência nas periferias, onde viviam principalmente afrodescendentes e latinos. Nesses bairros, aconteciam festas chamadas block parties (festas de bairro), reunindo a música, a dança e o grafite, que viriam a fazer parte da cultura hip hop.

Leia também: Do Brasil ao Nordeste, o poder de adaptação

No Bronx, Clive Campbell usava sons de carros quando organizava essas festas. Campbell é um DJ jamaicano que adotou o nome de Kool Herc e é considerado como pai do hip hop por muitos. Responsável por unir os cinco elementos e por inserir o estilo Toast à música, maneira de cantar uma sequência elétrica de rimas em cima de uma batida tirada dos discos. Ele traçou o caminho para o rap surgir nos Estados Unidos, afastou o hip hop da associação com as gangues substituindo as guerras armadas por batalhas de rap e break.

Saiba mais em Hip Hop de A a Z

Ao unir os elementos artísticos (break, MC, DJ e grafite) ao elemento político (conhecimento), o hip hop trouxe novas ferramentas para a manifestação da juventude. O quinto elemento – conhecimento, é responsável pela consciência histórica e transmissão da sabedoria, tão importante para a luta, o protesto e as denúncias dos obstáculos enfrentados nas comunidades. Essa nova forma de expressão espalhou-se pelo mundo por compartilhar cenários semelhantes com outras localidades.

“O conhecimento é justamente o reconhecimento por parte desses jovens da sua ancestralidade. Conhecer, por exemplo, nos EUA, a luta dos Direitos Civis do povo negro que na época dos anos 1960, aconteceu simultaneamente à Guerra do Vietnã”, destaca Mônica Costa.