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O combate incisivo de Lady Laay

Representante da pungente nova cena de mulheres MCs do Recife, ela faz do microfone arma contra várias opressões

Não é raro que um artista faça valer o direito à liberdade criativa para invocar uma persona que o represente. Se, durante as oito horas diárias em que se apresenta como programadora web numa empresa de tecnologia Elaine Silva faz uso de seu nome de batismo, quando porta um microfone a figura muda de nome e expressão. Literalmente. A voz mansa e o jeito simpático se transmutam em potência. Aí nasce Lady Laay, a Audaciosa.

Aos 24 anos e morando na Cidade Tabajara, em Olinda, a garota ingressou no hip hop através do breakdance, que conheceu ainda na escola, no bairro de Vila Dois Carneiros (Jaboatão dos Guararapes), há quase uma década. Desde o primeiro contato com a cultura de rua, enfrentou batalhas várias, como numa metáfora indesejada com as disputas de danças e rimas inerentes ao novo ambiente. O machismo, adversário principal, se fez presente desde o início, na resistência vinda dos homens do movimento e da própria família.

“Em casa, ele (o machismo) tinha tom de proteção”, conta. “Minha mãe chegou a jogar minhas coisas do break no lixo, questionou se eu tinha ‘me tornado’ lésbica por conta das roupas largas, dos bonés. O hip hop me ajudou a mostrar a meus pais que eu poderia fazer o que quisesse”, relembra.

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A dança foi caminho para que se encantasse pelas tintas e pinceis do grafite, levando-a a finalmente encontrar na música o canal para expressar seus inconformismos. Em Quantos Inocentes Ainda Vão Sangrar?, o primeiro rap que escreveu, aborda o genocídio da juventude negra e periférica. “Cria da rua / à própria sorte largado / desde a barriga da mãe seu destino já estava traçado / seu fardo? ser analfabeto, preto, pobre, favelado / seu destino, amanhã, sem motivo, ser baleado”. Lançada como single, a faixa ganhou ilustração na qual uma criança negra tem um revólver apontado para a cabeça.

“Desde mais nova eu tinha um senso de justiça social, uma revolta com a desigualdade que eu via e vivia. Quando escutei o primeiro rap, dos Racionais MC’s, percebi que aquilo não era só entretenimento. Havia um tom político que não existia nas outras músicas e todo um movimento social por trás”, relembra Lady Laay

Dos cinco elementos da cultura hip hop, Laay considera que é no rap onde se reproduz mais misoginia. Dos ataques que presenciou, destaca um específico, há cerca de um ano. Durante os preparativos para um debate sobre a política nacional, realizado numa universidade pública da capital, os organizadores foram questionados sobre a falta de artistas mulheres na programação. As respostas irônicas, iniciadas nas redes sociais, se estenderam ao dia do ato, quando, numa roda de diálogo, as participantes tiveram o som do microfone desligado.

A resposta ela entregou na letra de DISSrespeito À Mulher, cujo videoclipe atingiu mais de 40 mil visualizações no YouTube, número marcante se comparado a média anterior, de 4 mil. O título é um trocadilho com o termo “diss”, dado aos raps escritos com a intenção principal de atacar um outro MC e bastante comum entre os rappers homens. Em 2017, o tema que mais motivou as réplicas e tréplicas entre eles foi a falta de visibilidade dada aos artistas nordestinos em relação ao espaço ocupado pelos do eixo Rio-São Paulo. A partir disso, a música de Laay aponta outra questão: “Trouxe visibilidade pra cá? / mas só pros cara e não pra nós / mulher ainda tá no escanteio / ainda tentam calar nossa voz”.

Confira o MIC Aberto de Lady Laay