Arquivo de tag Contexto

“O inimigo é outro”

A mudança cultural da juventude norte-americana, negra e periférica

Mônica Costa, professora da UFPE, pesquisa sobre o movimento social hip hop

Nos anos 1960 os jovens de classe média e universitários adotavam o estilo de vida hippie, os brancos que ouviam música negra faziam parte da turma do sexo, drogas e rock’n roll, enquanto isso, as periferias conviviam com a violência, o preconceito e o esquecimento dos órgãos públicos. Todos tinham motivos para protestar. Na mesma época, a contracultura permeava o espírito da juventude com sua contestação social.

Por mais de 40 anos a polarização esteve presente na ordem mundial. Durante a Guerra Fria, as dualidades se tornaram constantes, eram eles ou nós, capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente. Essa divisão também era sentida em âmbito nacional pelos norte-americanos, mas era uma questão racial. A separação entre eles acontecia em bairros, escolas, ônibus e banheiros.

O hip hop nasceu nos anos 1970, inspirado pelos protestos durante o Movimento pelos Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos. O intuito da mistura de elementos era criar uma alternativa para a violência nas periferias, onde viviam principalmente afrodescendentes e latinos. Nesses bairros, aconteciam festas chamadas block parties (festas de bairro), reunindo a música, a dança e o grafite, que viriam a fazer parte da cultura hip hop.

Leia também: Do Brasil ao Nordeste, o poder de adaptação

No Bronx, Clive Campbell usava sons de carros quando organizava essas festas. Campbell é um DJ jamaicano que adotou o nome de Kool Herc e é considerado como pai do hip hop por muitos. Responsável por unir os cinco elementos e por inserir o estilo Toast à música, maneira de cantar uma sequência elétrica de rimas em cima de uma batida tirada dos discos. Ele traçou o caminho para o rap surgir nos Estados Unidos, afastou o hip hop da associação com as gangues substituindo as guerras armadas por batalhas de rap e break.

Saiba mais em Hip Hop de A a Z

Ao unir os elementos artísticos (break, MC, DJ e grafite) ao elemento político (conhecimento), o hip hop trouxe novas ferramentas para a manifestação da juventude. O quinto elemento – conhecimento, é responsável pela consciência histórica e transmissão da sabedoria, tão importante para a luta, o protesto e as denúncias dos obstáculos enfrentados nas comunidades. Essa nova forma de expressão espalhou-se pelo mundo por compartilhar cenários semelhantes com outras localidades.

“O conhecimento é justamente o reconhecimento por parte desses jovens da sua ancestralidade. Conhecer, por exemplo, nos EUA, a luta dos Direitos Civis do povo negro que na época dos anos 1960, aconteceu simultaneamente à Guerra do Vietnã”, destaca Mônica Costa.