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Os caminhos do Arrete

Formado por três experientes MCs, o grupo tem colhido os frutos da longa jornada trilhada por elas

Quem observa a movimentação nos bastidores de um show do projeto Arrete percebe que ali a música é componente central, mas não único entre as três MCs que o compõem. Nina Rodrigues, Yanaya Juste, a Ya, e Weedja Leite caminharam separadas, por mais de uma década, até que repousassem na parceria e maturidade com que o Arrete as vem presenteando há quase cinco anos.

O primeiro contato de Nina com a música foi através da família. Todos são da Paraíba e, nas viagens de férias até lá, as rodas de samba predominavam. A sanfona que acompanhava a mãe desde os 15 anos ainda existe, os encontros musicais também. Com o ex-padrasto, aprendeu a amar o teatro, dos ensaios das peças menores às óperas apresentadas no Teatro de Santa Isabel. Há 15 anos, então com 20 de idade, conheceu militantes da cultura negra, na mesma época em que foi apresentada ao hip hop. Participando do coletivo Conspiração, junto a outros tantos MCs, passou a integrar o primeiro grupo de rap, o Magia Negra. Pouco depois, já no Na Base da Resistência, ganhou companhia de duas mulheres, Preta Anna e Yasmina Juste, irmã de Yanaya.

Junto a Preta Anna, pode distinguir e amadurecer o que amava na cultura de hip hop. “Foi quando entramos para o Confluência que veio toda uma gama de conhecimento. Aprendi muito sobre a cultura popular nordestina”. Rimas, métricas, cenários do imaginário local serviram de combustíveis para que compartilhasse com o mundo as letras que já vinha compondo. Sobre o que permeava os escritos, ela responde, entre um suspiro e outro: “medo”.

“Os caras impunham que a gente cantasse de calça larga, se portasse como eles. Se, em algum momento, eu tentasse sensualizar ou algo do tipo, quando descia do palco ouvia deles que não deveria mais fazer aquilo. Fui muito silenciada. Tenho calos nas cordas vocais pelo esforço que fazia para engrossar o tom e impor respeito. Hoje, se quiser, eu posso ‘cantar grosso’, mas tenho consciência de que não me é mais imposto”, detalha Nina

Enquanto articulava as entradas, saídas e as participações em tantos grupos, Nina se dedicava ainda à faculdade de gastronomia. A conclusão do curso coincidiu com uma pausa na carreira artística. Fez o último show em 2012, grávida de quatro meses de Sofia. De Yasmina, companheira no Na Base da Resistência, herdou a amizade de Yanaya, início do desenho do que viria ser o Arrete.

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FEMINISMO

Filha da brasileira Tâniamara Pimentel, filósofa, e de Jean-Pierre Juste, francês e artista plástico, Ya saiu encantada com o primeiro show que assistiu do Na Base da Resistência, por volta de 2002. Tinha 13 anos. Weedja já era amiga próxima e a convidou para cantar rap no Irmanadas, grupo onde um homem escrevia as letras.

“Eu achava um absurdo, queria escrever o que eu iria cantar. Mas quando entrei tinham pouquíssimas meninas, as primeiras que eu vi no palco foram Nina, Preta Anna e minha irmã. É uma montanha-russa (a existência de mulheres no rap), tem hora que o movimento tá cheio e hora em que há ninguém por conta da vida que a mulher tem, ser mãe, sustentar a casa. As coisas hoje caminham mais rápido e, para mim, quanto mais mulher, melhor”.

Em 2007, Ya se mudou para a Paraíba, onde permaneceu atuante, sendo premiada como artista revelação durante o 1° Festival de Rap do estado. Cinco anos depois, a decisão de voltar para o Recife foi fuga de um relacionamento abusivo. Nina, então, a apresentou aos conceitos feministas que a fizeram compreender tudo pelo que tinha passado e as opressões de gênero que permeiam até a cultura que abraçou.

Formada em Design de Moda, Ya é quem assume as maquiagens, figurinos e visual irretocável dela e das companheiras. “Entrei no hip hop nessa divisão de águas de que se a gente quiser se maquiar, por exemplo, podemos. Trabalho muito a estética porque fui muito oprimida e poder fazer isso é libertador. A gente também acompanha a moda que sempre esteve ligada ao hip hop, tá aí o Emicida (o MC paulistano tem uma marca de roupas e participou da última edição da São Paulo Fashion Week). A diferença é que tentamos sempre nos adaptar aos símbolos nordestinos”.

A experiência violenta pela qual passou foi mote para que escrevesse a letra de Arrete Não, música que involuntariamente acabou dando nome ao projeto. De mãos dadas a Nina e a Weedja, gravou o videoclipe que, em abril de 2013, anunciava que elas estavam na ativa novamente.

BRANQUITUDE E LUGAR DE FALA

Mulheres brancas, Ya e Nina têm consciência que o fenótipo de ambas gera olhares críticos entre os mais puristas. A opção pelas roupas e maquiagens da moda, os cabelos loiros de Yanaya, já renderam ao Arrete a pecha de “grupo de YouTube”. Elas rebatem.

“Sou branca, moro em Boa Viagem, por isso acham que sou rica, que não posso estar no hip hop. Mas eu tenho uma luta legítima, apoiando a todos, respeitando e sabendo dos meus privilégios. Sei da legitimidade do hip hop e respeito muito isso. Mas a poesia é aberta e não quero e não vou me calar. Por outro lado, as pessoas não têm notado nossas mulheres negras e isso me incomoda”, diz Nina Rodrigues

Se de Ya vem o amor pelo ragga – tipo de música eletrônica oriunda da Jamaica, de Nina, o encantamento pela poesia popular nordestina, o baião, o rock, é de Weedja Leite, filha orgulhosa da periferia que sai a atenção aos ritmos majoritários por lá, como o brega e o pagode. “Eu fui criada e moro na favela (o bairro de Cajueiro Seco), nunca saí de lá. O rap veio para falar desse lugar e se expandiu para outras coisas. Não somos ‘garotas do YouTube’, tivemos dificuldades. Hoje existe uma cena porque a gente se fortaleceu”, diz Weedja.

O Tio Mô dançava break em Prazeres, bairro de Jaboatão pioneiro na dança de rua em Pernambuco. O irmão, Wellinton ‘Paçoca’, é MC do Erupção do Rap. Ela cresceu no meio disso tudo e, não por menos, foi uma das primeiras a ganhar campeonatos individuais locais de break, ainda no fim dos anos 1990. Um amigo convidou a cantar, ela aceitou e desde então não saiu mais do hip hop.

A primeira entrevista de Weedja para o Salve Todas aconteceu apenas 25 dias após ela dar à luz ao pequeno Benjamin, durante o show no festival Sonora – Ciclo Internacional de Compositoras, em Olinda. O filho havia ficado em casa e, no olhar da mãe, uma mistura de orgulho e preocupação. “Eu não posso demorar, preciso amamentar meu bebê”. Quase dois meses depois, voltava de vez à rotina, em uma apresentação no bairro da Várzea, com uma força que só as mães, mães artistas, conseguem ter. “Ele é meu filho e daqui para frente quero que ele me acompanhe onde eu for”.

Confira o MIC Aberto do Arrete

SEMPRE COM A FROTA

Essa mistura potente de referências tomou forma concreta em julho de 2017, com o lançamento de Sempre Com a Frota, primeiro álbum do Arrete. O hibridismo está presente desde abertura, a faixa Poetizar, com forte referência à embolada. O disco teve apoio do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) e está disponível para audição em plataformas de streaming. Já a versão física será distribuída gratuitamente na Colônia Penal Feminina do Recife e têm o encarte todo traduzido para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Com o resguardo do DJ Clécio Rimas e das dançarinas Duda Serafim e Ayara Martins, o Arrete têm se desdobrado para atender a todas as demandas do novo passo, misto de conquista e maior responsabilidade.