Preta Anna: “O rap salvou a minha vida”

Legoriana Nunes foi ‘convocada’ a entrar no hip hop quando a vida direcionava a caminhos perigosos

“Preta, ou tu canta ou tu canta”. Ela tinha 13 anos quando uma amiga a encurralou num banheiro de bar da Rua da Moeda. O mundo já havia lhe apresentado muitas coisas ruins. Sem estudar, sem expectativa e cercada pelo consumo e venda drogas, a vida noturna ocupava o espaço de lar. Um primo, conhecido por D2, já tinha comentado o rap, mas foi a convocação de Nina Rodrigues, MC do projeto Arrete, naquele banheiro da Rua da Moeda, que a acordou para o mundo das rimas.

“A gente se encontrava sempre na noite, eu achava ela (Nina) chata, ela me achava abusada. Fui com meu primo para um baile aqui na Moeda, e ela estava lá. Me empurrou na parede do banheiro e disse que eu entraria no ‘movimento’. Dei risada, porque nessa época eu só sabia beber cerveja”, recorda Legoriana Nunes, a Preta Anna. Para Nina, desde o dia no bar da Moeda, a ‘minha Pretinha’

Um telefonema, menos de 24h depois, e as mães de ambas estavam sendo apresentadas na porta da casa de Nina. Daí em diante foram pelo menos seis meses de estudos e ensaios diários. Anna contava à parceira as coisas da vida, sobre a mãe prostituta, a tentativa de ser abortada. Tudo virou letra rabiscada em cadernos, a contragosto da família de Preta. Em pouco tempo, formaram o Na Base da Resistência.

Preta Anna passou por uma verdadeira imersão no universo hip hop, até ingressar no primeiro grupo de rap, o Na Base da Resistência

Mãe aos 17 anos, Preta acabou deixando a arte de lado enquanto Letícia, a filha, crescia. Não durou muito até que fosse convidada a integrar o Confluência, onde, misturando o rap com repente, abriu a visão para a conversa com outros gêneros. Lá, no entanto, Nina e ela ainda faziam mais backing vocals para as músicas cantadas por homens.

“Mas o Confluência também acabou. É engraçado como as coisas acontecem e vão acabando, como viver de música é quase impossível. A gente vai amadurecendo, cria família, as responsabilidades financeiras chegam e a música vai ficando de lado”.

Assista ao MIC Aberto de Preta Anna, gravado após show com o Arrete

VOZ NAGÔ

No meio do caminho entre o Na Base da Resistência e o Confluência, Preta Anna se tornou técnica em enfermagem, numa luta diária e constante para conciliar também os plantões e os cuidados com a filha, hoje com 13 anos. Letícia garantiu a força para a luta. “Fiquei onipotente”, assegura.

Onipotência e onipresença que se mostram quando, entre gargalhadas, conta que quase não dorme para não deixar morrer a artista que ressurgiu em 2012, quando foi convidada a fazer parte da segunda geração do Voz Nagô, grupo idealizado pelo percussionista Naná Vasconcelos. Com mais seis mulheres negras, Anna canta cercada por ritmos afro-pernambucanos, especialmente o maracatu, ocupando a vaga deixada pela cantora Isaar.

Naná Vasconcelos, eternizado em estátua no Bairro do Recife, a convidou para cantar no Voz Nagô

“Fui morrendo de medo porque meu contato com a música era somente o rap. Nunca estudei música, fiz no máximo três aulas de canto”. O convite partiu do próprio Naná, interessado pela voz de Anna, apresentada a ele pelo DJ Big, marido dela durante dez anos.

Também a convite do percussionista, foi backing vocal do Batucafro, outro projeto idealizado por Naná para saudar a musicalidade ancestral presente no afoxé, no coco, relendo obras clássicas, como a MPB de Tom Jobim.

Na família com 12 mulheres, Preta aprendeu a ser forte. Por causa da rejeição materna, foi registrada como filha dos avós, sendo criada por eles e pela tia Lindalva, a quem ainda hoje chama de mainha. Nenhuma das três mães está mais viva, mas a memória de cada uma delas, conta, a acompanha em todo lugar.

“Minha mãe biológica, branca, faleceu em decorrência das complicações da AIDS sem aceitar muito bem ter uma filha negra. Mas a cultura conseguiu fazer com que eu entendesse que cada pessoa é de um jeito e tem seus motivos para isso. Hoje eu falo dela com muito amor”.