Sereias do mangue

Sereias do mangue

A 8.0.8 Crew faz rap de mina para todo mundo ouvir

Recife foi o ponto de encontro entre Lilian Araújo, 26 anos, e Jnany Cavalcante, 23 anos. Uma capixaba e uma carioca que viveram a infância em Ribeirão Pires, um município de São Paulo com menos de 78 mil moradores, e se conheceram em uma capital com mais de 1,5 milhão de pessoas. “Não deu tempo”, declara Lilian. Agora elas não se perdem, mantêm o sincronismo do grupo através das redes sociais. Lilian é Lilo, Jnany, Nany Ninee, e Iara Fernandes, 18 anos, a DJ Afrodite. Elas vivem na RMR enquanto Mylena Alves, bgirl, e Alessandra Carvalho, artes visuais, tocam os projetos da Crew no interior do estado.

“Rap de mina quando eu falo não é rap que mina escuta, é rap que mina faz, rap que mina canta, que rima, não que tá só no refrão” – Nany Ninee

O duplo espelho de vênus está presente na marca da 8.0.8 e é frequentemente reproduzido pelas suas integrantes. Esse triângulo representa o gênero feminino unido

Nany veio para Pernambuco com a família aos 8 anos, em busca da tranquilidade do Agreste. Em Belo Jardim teve suas primeiras aulas de música na Filarmônica da cidade. Ganhou gosto pelo hobby, cantou rock, reggae e coco até decidir, aos 16 anos, que a música seria sua profissão.

Lilo é filha de pai músico e ator. Foi dele que recebeu o estímulo para aprender música aos 12 anos, ingressar na poesia aos 14 e entrar para o teatro aos 15. Viveu em São Paulo em contato com a cultura nordestina, coco, maracatu e cavalo-marinho, até ficar saturada da metrópole. Há dois anos veio para o Recife estudar História na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Iara é pernambucana, moradora do Ibura e uma das poucas mulheres DJs no hip hop recifense. Teve o primeiro contato com o rap aos 5 anos enquanto ouvia Gabriel O pensador escondida atrás do sofá com o diskman dos pais. “Eu não entendia a mensagem social, mas já gostava da sonoridade”.

O grupo de amigas com nome de música funk evoluiu para a 8.0.8 Crew. A mensagem delas é clara na música Não Prolonga

Não prolonga!
Aqui é sem delongas!
Cansei do seu showzinho, vou ocupando com reponsa
Se liga nessa bronca
Aqui num é faz de conta
Se acuso teu machismo é porque tenho compromisso
Não desafia a banca, porque até o rap nois tomou de assalto
E foi por falta de espaço
Com as mina tamo na contenção
Agora é tudo pé no peito, sem massagem
Aqui não tem brothagem pra você
Machista, vacilão!

Confira o MIC Aberto da 8.0.8 Crew

MULHERES PRODUZINDO MULHERES

O reconhecimento da 8.0.8 como profissionais veio com a parceria da Aqualtune Produções. Lenne Ferreira, jornalista, e Tássia Seabra, produtora cultural, já acompanhavam o trabalho da crew e vice-versa. A admiração mútua levou há uma negociação, que durou três meses, até que a conversa virasse contrato. Assim conheceram Iara, que já trabalhava com a Aqualtune, e se juntou a 8.0.8 Crew em outubro.

Quando vão aos shows com Lenne e Tássia sentem a diferença no tratamento, Lilo explica “Quando é com elas tem um tratamento todo especial, porque elas são mulheres, negras, periféricas, então, elas sabem da demanda”. O desrespeito em shows vai da falta de água a pedidos de show sem cachê para “fortalecer o movimento”. “Se vai pagar cachê eles chamam os caras, mas quando vêm falar com a gente, a maioria das propostas, é tipo Vamo fortalecer a favela”, expõe Iara, “a questão que incomoda é que eles usam o representar a favela pra representar eles”.

A sincronia fez a agenda encher, os planos para 2018 incluem clipe, lançamento de EP e uma cypher com mulheres do Nordeste, além da grata surpresa de uma parceria com Bione, semi-finalista do Slam das Minas PE. “Prepara que em 2018 vocês vão ver muito a cara da gente”, Nany manda o recado.

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