Do Brasil ao Nordeste, o poder de adaptação

Do Brasil ao Nordeste, o poder de adaptação

Mulheres inseridas na cultura hip hop se enxergam como importantes agentes de mudança social

Se, nos Estados Unidos, contextos políticos como a luta pelos Direitos Civis fizeram com que a juventude negra reconhecesse no hip hop uma arma cultural em nome da busca pelo conhecimento, por aqui, o movimento norte-americano ganhou moldes abrasileirados, na medida em que passou a ser usado para questionar problemas específicos da realidade do País. O mesmo aconteceu no contexto nordestino e, mais ainda, entre as mulheres rappers.

A narrativa de jovens mulheres rappers foi objeto de estudo das professoras Maria Natália Matias Rodrigues e Jaileila de Araújo Menezes, em pesquisa apresentada à Universidade Federal de Pernambuco. Ao analisarem o conteúdo das composições de autoria dessas artistas, ambas entenderam que, mulheres inseridas em ambientes abertos à cultura hip hop, quando leem letras que abordam recortes de gênero, raça e classe, passam a se enxergar e a se reconhecer como figuras importantes.

Como artistas, passam a ter estímulo para ler, pesquisar, escrever, criando o costume de estudar continuamente, algo que muitas vezes não é introduzido a sua realidade por meio da educação formal. Há, então, o sujeito se reconhecendo como ator político, capaz de não apenas consumir, mas compartilhar informação, produzindo conhecimento.

“Num País como nosso, no qual a escola ainda não inclui a todos, para jovens de periferia, a saída tem sido a inserção em movimentos culturais. Um deles é o movimento hip hop”, analisa Natália Rodrigues.

A professora Natália Rodrigues viu nas letras de jovens rappers detalhes sobre a vida pessoal das artistas relacionados às dificuldades de permanecer no hip hop

A questão racial aparece atravessada na vida das mulheres porque as letras majoritariamente abordam as violências maiores sofridas pelas negras. A desistência de seguir com a carreira  artística é outro ponto frequente, porque além de inseridas numa cultura periférica, na qual a remuneração quando da realização de um show, por exemplo, é mínima ou muitas vezes sequer existe, as MCs esbarram em jornadas duplas de trabalho, já que financeiramente há a necessidade de trabalhar num emprego formal e várias delas são donas de casa.

A maternidade, quase sempre solo, sem grande ajuda do pai de seus filhos ou companheiro, também é fator determinante na decisão de muitas por pausar ou abandonar de vez o rap. A baixa escolaridade, refletida no acesso à empregos de baixa renda, é outra dificuldade apontada.

“Como quem realiza os eventos de rap também não tem acesso a grandes bens materiais, o cachê, muitas vezes, não existe. Chegam a faltar itens básicos, como água no camarim. Os artistas comparecem, como eles mesmos afirmam, para ‘fortalecer a cena'”, afirma Natália.

“Essas mulheres são guerreiras” – Natália Rodrigues, professora universitária e autora da pesquisa Narrativa de Jovens Mulheres Rappers

ALTERNATIVA

A popularização da internet, junto a maior facilidade para baixar programas e batidas para musicar as letras é apontada como método de burlar tais dificuldades. Também como plataforma, é a internet quem possibilita atualmente maior facilidade de divulgação das músicas, sem que precise haver atravessadores, como as grandes gravadoras, ou a necessidade da distribuição física de CDs, o chamado ‘de mão em mão’. O material, portanto, tem a possibilidade de chegar mais rápido e a um maior número de pessoas.

“Como o rap é música autoral, no entanto, não há a possibilidade de se fazer o que acontece com ritmos como o samba ou a MPB. Uma rapper não têm como ir a um barzinho, cantar um cover e ganhar um cachê bacana. Elas são umas guerreiras porque conseguem se manter apesar de todas as dificuldades”, arremata Natália Rodrigues.

Os cinco elementos que compõem a cultura hip hop:

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