Mun há

O processo de construção de um artista esbarra em diferentes perspectivas. A personagem Mun Há já se tornou parte do eu de Crys Guimarães, estudante de teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Criada com o intuito de participar da cena drag recifense com performances, provoca questionamentos ligados à arte, ao belo e a questões políticos sociais. A artista é o reflexo de uma contemporaneidade cheia de dificuldades mas que busca na arte uma forma de expressão.

Sempre sonhou ser artista. “Desde criança via a arte como algo inalcançável. Mas um dia pude não só alcança-lá, mas como fazer arte. Esse processo me tornou um ser mais rico de conhecimento e de participação no mundo. Ser o que sou hoje, uma artista, me deixa completamente realizada”, lembra emocionada. 

Aos 21 anos, Mun Há mora com a avó, de 88 anos, nas proximidades da UFPE, no bairro da Várzea, zona oeste do Recife. Nascida no Rio de Janeiro, veio ao Recife muito jovem, após a morte dos pais. Desde, então, busca a partir de trabalhos externos um complemento à renda mensal. Junto ao Coletivo Moon, a artista realiza performances em eventos privados, como festas e raves. “Esse meio dá dinheiro. As perfos são mais visuais e acaba que o processo criativo é muito livre. Trabalho muito com fogo. Isso é um diferencial”, explica.

De acordo com ela, o pagamento gira em torno de R$ 100 a R$250, a depender do trabalho. Além do cenário de entretenimento, Mun Há expressa seu lado mais político e social em performances em eventos e reuniões. “Minha personagem é meu reflexo. Ela expressa e participa de eventos relacionados às coisas que acredito”, detalha. 

Em suas apresentações, a estranheza do público é evidente. “Rolou um evento no Ibura e minha perfo discutia a violência policial. Eu bebi um ‘toddynho’ de sangue. Nesse momento eu via as pessoas chocadas, mas o principal foi feito: elas refletiram”, pontua. A artista ainda lembra outra obra marcante quando cortou seus cabelos em meio ao público durante uma performance visual sobre a beleza e o câncer. 

As provocações fazem parte do processo performático. Mun há destaca que a arte não é para ser compreendida, apenas refletida. “Meus processos são claros. Não faço nada para deixar o público ciente. Eles devem interpretar à sua maneira. Isso me instiga”, conclui. Os assuntos mais tratados em suas obras são questões ligadas à sua realidade: corpo – não binário – e contexto social.

Seu trabalho espelha-se em referências únicas. O uso de materiais recicláveis auxilia no processo de construção de um personagem desprendido de apelo a questões estéticas se torna o destaque de sua arte. Em performance realizada para esta reportagem, Mun Há provoca o questionamento do belo frente à pobreza.

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MÚSICA

Bônus: A música também faz parte de seu trabalho. Ousada e experimentando influências sonoras ligadas ao reggae, Mun Há lançou seu primeiro single: “Quem Vai Salvar?”. A música é um discussão sobre o uso de maconha no cenário jovem.