Nasce uma cena

Pernambuco respira arte na música, na dança e nas artes plásticas. A profusão de ritmos locais, do frevo ao brega funk, expressam as identidades e desejos de gerações. Nos últimos anos, as periferias vêm ocupando espaço nos cenários nacional e internacional com sua música e cultura. Entendendo esse processo de efervescência criativa, a habilidade de criar produtos artísticos faz desses espaços, geralmente marginalizados como locais de falta, importantes centros de criação e construção de subjetividades. É assim também no cenário da performance.

Nos bairros periféricos da Região Metropolitana do Recife (RMR), jovens em sua maioria LGBTQI+, despontam como artistas que usam seus corpos e suas realidades como linguagem artística para falar de de si e de seus territórios. “Ser da periferia não obrigatoriamente te faz ser desprovido de cultura. A arte é algo acessível a todos. Dentro desse espaço produzimos e expressamos quem somos. Minha forma de falar ao mundo é pelo meu corpo, através dele eu faço e tenho minha identidade de arte”, explica Cida Gloss (@meninacida), a jovem artista de 18 anos, residente do bairro de Santo Amaro.

As performances desta nova cena local têm as festas clubbers e os centros acadêmicos, em especial nos Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) como palco, mas reverberam também em postagens nas redes sociais (majoritariamente no Instagram), onde os artistas discutem sua arte e ampliam seus públicos. “Ocupar alguns espaços de arte sempre foi difícil. Ter meu próprio local para compartilhar meus trabalhos é um ato de liberdade. Através deste meio podemos conquistar tantas coisas, mais admiradores e/ou trabalhos”, conclui Cida.

Conectados pela tecnologia, pela arte e por traços de personalidade em comum, os performers usam da arte para debater questões ligadas à sua sexualidade e corpo. Um dos nomes mais reconhecidos deste meio é a performer Aura, que tem sua arte replicada em diversos perfis do Instagram (@aoruaura). A repercussão levou a artista a apresentar live performers em Galerias, ser curadora da revista Propágulo e participar de clipe da banda Cordel do Fogo Encantado. Procurada pela reportagem para falar de sua trajetória, Aura detalhou que não dá entrevista. Além dela, uma cena emerge de diversos bairros, todas conectadas através de hashtags e likes oferecidos pela plataforma.

O uso desta plataforma serve como um propulsor de ideias. Para estes artistas, o espaços valorizados de arte, a exemplo de museus e galerias, não se torna um objetivo. Na era dos seguidores, ter um boa interação virtual se torna mais importante. A análise sobre o fenômeno que leva a estes jovens a utilizarem as redes sociais é observada por Fernando Fontanella, mestre em comunicação pela UFPE, como um reflexo da sociedade que historicamente oprime e marginaliza. “Tudo isso é construído através do empurrão da ‘necessidade’. Por ter menos oportunidades de se expressar em espaços ditos ‘elitizados’, essa galera se agarra no que é considerado de baixo custo e relacionado à sua época”, diz.

Ao desconectar-se do meio digital essa cena encontra espaço também em festas e encontros pela cidade, em especial nas periferias, onde as discussões de arte e tornam-se recorrentes. “Os subúrbios são centros que vibram arte. Atualmente jovens desses locais encontram na arte a possibilidade de se fazer existir e ganhar visibilidade frente às questões tão problemáticas que permeiam a sociedade dita marginalizada”, destaca o mestre em performance pela Universidade de São Paulo (USP), Elilson, natural do Alto do Pascoal, bairro da periferia do Recife.

Temas como gênero e questões sexuais também afloram nesses artistas a necessidade da abertura do diálogo. “A arte sempre foi um espaço para provocar e discutir. Performance tem na sua veia as características provocativas. Quando analisamos o cenário local, aqueles que estão dominando as redes e ganhando uma notoriedade entre seu próprio grupo são essa garotada jovem que se identifica e busca ser artista”, explica o mestre, que também é mediador de oficinas de performance para jovens.

O processo de amadurecimento artístico leva tempo e, sobretudo, uma construção identitária muito forte. Esta atual cena, mesmo que provocativa, ainda está no processo de moldagem de sua participação como artista. Elilson pontua o processo de crescimento como algo diário. “Não podemos julgar a intenção artística desta nova cena. A arte não precisa de sentido, ela é o sentido. Entendemos que, por se tratar de jovens, ainda há muitas questões a serem discutidas, mas já são artistas a partir do momento que decidiram ser”, esclarece.

Essa provocação sobre o sentido de arte não se restringe apenas ao cenário jovem e periférico da RMR. Historicamente, a performance não é uma manifestação artística de grandes públicos, mesmo nos cenários internacionais. Desde década de 30, com o primeiro registro de performance no Brasil, realizada pelo arquiteto e artista Flávio de Carvalho, a controvérsia sobre a sua configuração como expressão artística já era discutida. Mesmo em outras décadas, a expressão ainda causa questionamentos sobre sua proposta e estética.

Boa parte das provocações são em virtude do conteúdo apresentado nas performances que trazem à tona discussão sobre a necessidade e relevância do mesmo para o cenário da arte. A performer Flávia Pinheiro (@pinheiroflaviab), uma das mais consolidadas do cenário Recifense, destaca o meio no qual a arte é vista, ainda cercada por preconceitos. “Fazer arte não é algo fácil. A sociedade, em sua maioria, julga as ações artísticas visando apenas a sua função no meio artístico. Mas a arte, em sentido performático também, é uma somatória de diversas influências e repertórios que juntos provocam sempre novos sentidos”, enfatiza. Ainda de acordo com a artista, os questionamentos são provenientes de um cenário de falta de acesso à arte dita “conceitual” desde o ensino básico.

No cenário recifense, as reações não são diferentes. Por ainda ter um contexto marginalizado de negritude, LGBTQI+ e arte, esses jovens se sentem excluídos do circuito elitizado da arte tradicional e buscam construir seus próprios espaços. Ao esclarecer este ponto, Barbarize (@barbarize_), uma das jovens performers do cenário recifense, destaca que a arte é uma forma de colocar para fora os sentido internos. “É um grito de socorro e ao mesmo tempo uma descarga de raiva. Acho que não só eu, mas as a maioria das meninxs que estão nesse rolê colocam quem é dentro da sua arte. Não é só performance. É o que sinto. É meu corpo. Performar é resistir. É existir”, enfatiza.

O processo de usar a arte como forma de resistência é uma das discussões levantadas por Adelmo (@adovale_), também jovem nome desta cena. Para ele, as pautas abordadas são um reflexo das vivências dentro de sua realidade. “Encaro a performance como um local de fala em meio a um espaço tão marginalizado”, explica. Ainda há dificuldades em torno desta compreensão sobre o local de pertencimento da performance. Em contraponto ao dito entretenimento, para se tornar uma fonte de renda a expressão, vem se popularizando em espaços de festas e raves, onde a performance encaixa-se como uma expressão visual e lúdica para o entretenimento dos presentes.

 Ganhar dinheiro com a performance da forma que o artista deseja expor ainda está fora da realidade desses jovens artistas que, para tentar ter algum retorno financeiro, apelam para esse meio musical. “A cena é muito interligada com o entretenimento de festas”, enfatiza Flávia. Esse panorama faz com que outros meios sejam explorados por esses jovens, que também trabalham como DJs para complementar a renda. Detalhes desta cena noturna recifense onde performers se integram a festas eletrônicas, em sua maioria com estética clubber, para apresentar sua arte e ganhar dinheiro são o tema do curta “Fervo”, da diretora pernambucana e também performer Libra e Thiago Emanuel Santos, ganhador do MOV – Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco – nas categorias “Meu manifesto é meu corpo monstro” e “Meu corpo, minha resistência”.

Mesmo com um mercado ainda engatinhando para abertura aos novos diálogos, esses jovens têm despertado a curiosidade e ganhando público, tanto nas redes quanto em festas, desenvolvendo suas performances e, sobretudo, construindo o seu eu artístico utilizando o corpo como intermédio de diálogo sobre assuntos importantes de sua realidade. O fato é que, mesmo que ainda marginalizada, a cena espelha um novo reflexo da juventude conectada e dona de sua própria narrativa, expondo e buscando encontrar semelhantes em ideais e experiências a fim de reafirmar a sua identidade, mesmo em uma sociedade cada vez mais sujeita à discriminação e rejeição ao diferente.

O olhar da foto-performance

Ao pensar em uma narrativa imagética da cena jovem performática periférica na Região Metropolitana do Recife, o nome do fotógrafo JEAN (em letras maiúsculas), 22, vem à tona. Com uma linguagem única, o artista, apesar da pouca idade, já tem trabalhos apresentados fora do país. O morador do bairro do Engenho do Meio, periferia da cidade do Recife, tem na fotografia, desde os 17 anos, o meio de não só ganhar dinheiro mas de imprimir sua identidade no mundo.

Seus trabalhos são guiados pela forma de captar corpos e explorar seus sentidos, tanto no cenário da performance quanto na cena noturna. “Minha visão é captar a luz que emana dos corpos marginais, reconstruir a ideia do belo a partir das suas narrativas transgressoras, sendo fiel a marginalização retratada”, destaca.

O registro de performances é um dos objetos mais recorrentes de sua arte. No perfil do Instagram (@jea0n), que serve como portifólio, o artista compartilha projetos e fotografias de personagens característicos e conhecidos desse novo panorama performático. Mesmo sendo um suporte de visibilidade, JEAN pontua que a utilização da plataforma não é seu principal foco, mas mantém-se interessado em buscar alternativas para fazer seu trabalho alcançar novas pessoas. “Quero que as pessoas vejam minhas obras da mesma forma grandiosa que eu vejo, isso dentro e fora da internet”.

A entrada no cenário performático aconteceu sem pretensão. O seu processo criativo na captação fotográfica esbarra em ideias que surgem à medida em que as performances estão sendo realizadas. Depois dos primeiros registros começaram a sugerir novos convites de parcerias, trabalhos e muitas coisas massas. Ai quando vejo o material e a rede de artistas já existe”, conclui.

Além de registrar as performances, o fotógrafo vem construindo um portfólio na cena noturna, cobrindo festas e eventos ligados à arte. A fotografia também dá espaço para explorar novos elementos visuais, entre eles intervenções, colagens. O artista ainda tem produções na área da música, com mixtapes, e no audiovisual, com a direção de arte de curtas e projetos visuais.

JEAN já teve trabalhos expostos no festival Monat Der Fotografie Off Berlin, na Alemanha; na Galeria Capibaribe, Museu La Grecca, Museu do Estado de PE, revista Propágulo, todos em Pernambuco; e no site AFROPUNK.com. Além de já ter trabalhos com nomes local, foto-performance dos artistas Rhaisa, Aura, Libra e Aurora Boreal e outros.