Estamos falando de super heroínas como o centro principal, onde toda a atenção esteja voltada para elas. No universo da Marvel, podemos citar o filme solo de Elektra (2005), que surgiu nas histórias do Demolidor, a série da nossa amada Jessica Jones (2015) e o presente que foi Capitã Marvel com Brie Larson (2019). Ainda é possível que o filme solo da Viúva Negra abra oportunidades para mais produções dedicadas às mulheres badass que fazem parte da Marvel. Além disso, um grupo poderoso de mulheres, composto por Tessa Thompson (Thor: Ragnarok), Brie Larson, Scarlett Johansson (Os Vingadores), Zoe Saldana, Pom Klementieff e Karen Gillan (as três de Guardiões da Galáxia) se reuniram e ofereceram a ideia de um filme somente com personagens femininas a Kevin Feige, também conhecido como o Presidente da Marvel Studios.
Representatividade
Falta de filmes e séries solos de super heroínas
Será que existe uma quantidade similar de produções dedicadas a heróis e heroínas?
Flash, Homem-Aranha, Doutor Estranho, Homem de Ferro, Smallville, Gotham. Esses são alguns nomes que fazem parte da grande lista de filmes e séries sobre super heróis. E as super heroínas? Onde é que elas entram? Não vale citar filmes onde elas fazem parte de um grupo ou têm uma pequena participação, como Guardiões da Galáxia ou X-Men.
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Em junho de 2019, foi lançado o filme X-Men: Fênix Negra com Jean Grey (Sophie Turner) como a personagem central. Infelizmente, o longa saiu de cartaz marcando a pior bilheteria dentre os filmes da franquia X-Men. Já o filme de Sabre de Prata e Gata Negra (ambas da história do Homem-Aranha) foi retirado do calendário de lançamentos da Sony.
A DC Comics tem como foco maior a Mulher-Maravilha. Na década de 70, Lynda Carter foi a Diana Prince em uma série de TV e, em 2017, Gal Gadot foi a escolhida para interpretar a princesa Diana de Themyscira. Esse foi o primeiro filme solo de uma personagem feminina dos quadrinhos depois de Elektra, 12 anos de diferença. A Supergirl tem um filme de 1984 e a série da The CW, que lançou em 2015, com a atriz Melissa Benoist. A Mulher-Gato teve um filme em 2004 e agora a anti-heroína vive de aparições em séries e filmes do Batman.
Mesmo não sendo heroínas, adicionei a história que irá reunir algumas vilãs icônicas. Aves de Rapina estrou esse ano (2020) e acompanhou a parceria entre Arlequina, Canário Negro, Caçadora, Cassandra Cain e Renée Montoya na luta contra o vilão Máscara Negra. Além disso, podemos observar uma grande diferença nas roupas usadas por Arlequina em Esquadrão Suicida e Aves de Rapina.

Fotos: (Divulgação/Just Jared/Reddit)
Analisando o gráfico produzido, é possível perceber a falta de representatividade feminina nas produções da Marvel e DC. As séries da Ms Marvel e She Hulk (Marvel) não foram incluídas no gráfico, pois não possuem datas de estreia.
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E não é por falta de opções! Temos Mera, Feiticeira Escarlate, Canário Negro, Mulher-Gavião, Zatanna, Gamora, Tempestade e a lista continua. Com roteiros bem elaborados, várias heroínas poderiam ganhar vida fora dos quadrinhos e um maior reconhecimento. Além de que a Marvel e DC Comics iriam ter uma maior representatividade no seu catálogo de filmes e séries. No infográfico a seguir, é possível comparar a quantidade de longas de heróis e heroínas, produções anunciadas com data de estreia confirmada foram incluídas. A lista detalhada dos filmes é apresentada no final da matéria.
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– Marvel: Homem de Ferro (3), Capitão América (4), Thor (4), Hulk, Doutor Estranho (2), Homem Aranha (7), Blade – O Caçador de Vampiros (4), Demolidor, Homem Formiga (2), Logan/Wolverine (3) e Pantera Negra (2) X Elektra, Capitã Marvel, Viúva Negra e Fênix Negra.
– DC: Batman (9), Superman (8), Aquaman, Shazam e Lanterna Verde X Mulher-Gato, Mulher-Maravilha (2), Supergirl e Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa.
Representatividade
A ascensão da cultura drag
A cultura drag vem crescendo e chamando a atenção de diversas pessoas.
Um dos responsáveis por divulgar e expandir esse universo foi RuPaul Charles. Apresentadora, cantora, modelo e atriz, ela foi a primeira drag queen a lançar uma linha de maquiagem, a Glamazon, estrelar uma campanha da MAC (1994), a Viva Glam, e ter um programa na televisão, o The RuPaul Show. Transmitido entre 1996 e 1998, o talk show contava com sua amiga cantora Michelle Visage, que era a co-apresentadora e, atualmente, uma das juradas fixas do RuPaul’s Drag Race.
Muitos se familiarizaram com esse mundo por meio do Drag Race, que já tem doze temporadas e alguns derivados. Programas como esse permitem que as carreiras das competidoras ganhem uma maior visibilidade e que o público conheça melhor esse estilo de vida, além das dificuldades e experiências que elas já passaram, como a não aceitação da família ou problemas com drogas. Mesmo sem vencer, as drags saem das competições encontrando fanbases e recebendo convites para participar de clipes, filmes e séries ou até mesmo ter seus próprios programas.

Captura do clipe Power, da girlband Little Mix.
Para citar alguns exemplos, Trixie Mattel e Katya Zamolodchikova possuem dois programas, o UNHhhh (World of Wonder) e I Like to Watch (Netflix), ambos no Youtube, e tiveram o The Trixie & Katya Show (World of Wonder); Shangela fez uma participação especial na série Katy Keene (CW) e no filme Nasce Uma Estrela (2018); Brooke Lynn Hytes é a apresentadora do Canada’s Drag Race; Alaska, Courtney Act e Willam Belli participaram do clipe Power, da girlband britânica Little Mix; Bob the Drag Queen, Eureka O’Hara e Shangela comandam We’re Here, série da HBO; e Tatianna, Trinity The Tuck, Delta Work, Trinity K. Bonet, Jade Jolie, Adore Delano e A’Keria Davenport interpretaram, respectivamente, Ariana Grande, Lady Gaga, Adele, Cardi B, Taylor Swift, Katy Perry e Nicki Minaj no clipe You Need To Calm Down, da cantora Taylor Swift.
Além disso, há também o RuPaul’s DragCon LA e NY, lançados pela produtora World of Wonder. As convenções anuais permitem que o público conheça RuPaul, as ex-participantes do programa e outras drag queens.
“O programa [Drag Race] tem um impacto muito forte na vida de milhares de pessoas queers. Ele me inspirou muito e tenho certeza que foi protagonista para que, ao longo dessa geração, surgissem outras drag queens e também abrisse a possibilidade do consumo dessa arte, tornando-a mais universal. É um fato que ele emite grande visibilidade, você não é apenas uma drag queen, mas uma celebridade”, explica Cassia Blue. Ela conta que sua experiência enquanto drag surgiu de uma necessidade dentro dela.
Drag Queen Cassia Blue (Instagram)
“Meu corpo gritava por expressão, gritava por desconstruir a masculinidade e a frieza pela falta de arte que me habitava. Então foi tudo surgindo naturalmente e se tornando uma experiência a partir das possibilidades que eu tinha”.
A ascensão do reality fez com que algumas drag queens explodissem nas redes sociais digitais e outras decidissem se montar (expressão usada na cultura drag que significa se preparar com peruca, roupa e maquiagem) pela primeira vez. No Brasil, por exemplo, há Pabllo Vittar, Gloria Groove, Alexia Twister, Aretuza Lovi e Lia Clark.
Pabllo se interessou pela cultura drag por meio do Drag Race e, desde então, vem fazendo sucesso em diversos países e acumulando vários hits, como K.O., Na Sua Cara e Amor de Que. Além disso, ela é vista como a responsável por impulsionar a presença de artistas drags, trans e travestis na música brasileira. Groove também se identificou com as drags por meio do reality e deu início à sua carreira na música, com faixas como Dona, Gloriosa e Bumbum de Ouro. Ela também abriu os shows de drags internacionais, como Sharon Needles e Adore Delano, e dublou o personagem Aladdin (2019), participando da trilha sonora brasileira do filme. Além disso, Groove e Twister serão as apresentadoras de Nasce Uma Rainha, reality brasileiro da Netflix.
Atualmente, pessoas de diversos gêneros, raças e países consomem a cultura drag, independente da orientação sexual e mesmo não fazendo parte dela. Além do respeito e admiração que as artistas vêm recebendo, elas agora têm um espaço para divulgar seus trabalhos. “A ascensão drag é extremamente importante para que as pessoas possam se sentir representadas e ainda mais valorizadas, visto que no passado foram corpos considerados subalternos socialmente. Ter essa plataforma é extremamente importante para que as drags sintam-se valorizadas e, ao mesmo tempo, para que as crianças atuais enxerguem a possibilidade de se expressar mais cedo”, conclui Blue.
Ser drag não é apenas colocar uma peruca e maquiagem, mas, como RuPaul fala, é ter carisma, originalidade, ousadia e talento. E lembre-se “If you can’t love yourself, how in the hell you gonna love somebody else?”.
Representatividade
A presença das mulheres no audiovisual em Pernambuco
As mulheres começaram a assumir cargos de produção e direção e a lutar contra a ideia da mulher como fetiche.
Na maioria das vezes, as personagens vividas por atrizes são vistas como objetos sexuais, sendo apresentadas nos filmes e séries de forma que satisfaça o público masculino. É perceptível, principalmente em filmes de super-heróis, a diferença ao comparar longas que são dirigidos por mulheres com os que são por homens. Por isso, é importante ter a presença delas no cinema, já que vão trazer outros olhares sobre diversos aspectos, apresentar a representatividade e o empoderamento feminino e lutar pelos nossos direitos.
O CINEMA PERNAMBUCANO

Cinema São Luiz. Imagem: Hilary Shirley Carneiro dos Santos/Wikipédia
O cinema pernambucano é um grande destaque nacional, também reconhecido internacionalmente. A ascensão começou com Baile Perfumado (1996), dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, filme considerado marco da retomada do Cinema Pernambucano. Mas foi nos anos 2000 que Pernambuco se tornou um dos polos produtores de cinema mais relevantes do país, revelando Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Hilton Lacerda, Marcelo Pedroso, Sergio Oliveira, Renata Pinheiro, entre outros. O cinema pernambucano lançou títulos como Árido Movie, Boi Neon, Deserto Feliz, Baixio das Bestas, O Som ao Redor, Amarelo Manga, entre muitos outros.
Kleber Mendonça é um dos cineastas pernambucanos mais conhecidos e isso pode ser confirmado ao analisar o sucesso de Aquarius (2016) e Bacurau (2019). O primeiro foi escrito e dirigido pelo cineasta e produzido por Emilie Lesclaux. Concorreu a vários prêmios internacionais, como a Palma de Ouro, o Independent Spirit Awards e Prêmio Platino. Também entrou nas listas de melhores filmes do ano feitas por publicações estrangeiras, como o The New York Times, e conquistou o 1º lugar no ranking feito pelos alunos da National Film and Television School.
O segundo foi escrito e produzido com Juliano Dornelles e produzido por Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Com uma grande bilheteria, foi indicado à Palma de Ouro e venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Ele também recebeu o prêmio de melhor filme nos Festivais de Munique e Lima.
Outras produções pernambucanas que participaram de festivais e premiações foram:
- Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, na seleção oficial da mostra Un Certain Regard Festival de Cannes (2005). Além disso, recebeu o prêmio de “Melhor Filme Iberoamericano” no Festival Internacional de Mar del Plata (2006);
- O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, que ganhou prêmios no International Film Festival e Festival de Cinema da Polônia (2012);
- Tatuagem, de Hilton Lacerda, que ganhou três categorias no 41º Festival de Gramado (2013).
Anny Stone, jornalista e cineasta pernambucana, acredita que ter trabalhos na área de cinema é um ponto alto, pois leis e incentivos públicos foram conquistados ao longo dos anos, garantindo o crescimento do mercado na região. “O governo de Pernambuco, a partir de Eduardo Campos, em 2007, também garantiu a continuidade dos fundos do Funcultura Audiovisual, o principal edital de incentivo que temos aqui e que contava até o ano passado com os recursos do FSA. Tudo isso possibilitou o aumento do número de produções e oportunidades de trabalho”, conclui.

Milena Times. Foto enviada pela diretora
Apesar do cinema pernambucano possuir reconhecimento nacional e internacional, a participação das mulheres nessa área ainda não é um grande destaque. A roteirista, diretora e assistente de direção Milena Times acredita que a chave para reverter esse cenário é a organização coletiva, pois “o mercado audiovisual no Brasil é extremamente dependente de recursos públicos, que são aplicados por meio de políticas públicas. Portanto, é essencial ocupar e participar da construção delas”.
Ela acredita que, dessa forma, haverá mais força para reivindicar cotas afirmativas e paridade de gênero e raça nas comissões julgadoras de editais e curadoria de festivais, pressionar que as equipes sejam compostas com mais diversidade e reivindicar e promover cursos de formação voltados para mulheres, pessoas transgêneros, negras, indígenas e periféricas.
“A presença de uma maior diversidade de pessoas nos espaços de poder e decisão faz toda diferença para a construção de um audiovisual mais inclusivo e representativo”, conclui Times.
Desde 1949, 38 filmes brasileiros foram indicados ao prêmio Palma de Ouro, mas apenas um foi dirigido por uma mulher, que dividiu essa função com um homem: Linha de Passe (2008) – Walter Salles e Daniela Thomas. Porém, a atuação das mulheres no audiovisual vem crescendo atualmente e conta com a presença de, por exemplo, Cecília da Fonte (diretora, produtora independente e atua na Ventana Filmes), Mariana Porto de Queiroz, Tila Chitunda, Mariana Lacerda (diretoras e roteiristas) e Tuca Siqueira (diretora, produtora e roteirista).
Dea Ferraz, Clarice Falcão, Anny Stone e Milena Times são algumas das mulheres que decidiram lutar pelo seu espaço no audiovisual, dirigindo, produzindo e escrevendo produções. Há também o movimento Mulheres no Audiovisual PE, que surgiu em 2016 e é formado por estudantes e pesquisadoras.
Segundo Milena Times, que faz parte do coletivo, o objetivo do MAPE é “fortalecer as mulheres. As colocando como instrumento da luta pela igualdade na sociedade e, mais especificamente, no meio audiovisual. Buscando pensar nas ações a partir de uma ideia de interseccionalidade entre gênero, sexualidade, raça e classe e utilizando o audiovisual como ferramenta de luta, elegemos algumas frentes de atuação, como a formação teórica e técnica de mulheres trabalhadoras nas diversas área do audiovisual, produção de filmes coletivos e divulgação dos trabalhos audiovisuais realizados por mulheres”. Times trabalha com audiovisual desde 2006, já realizou dois curtas-metragens, Au Revoir (2013) e Represa (2016), e está desenvolvendo mais três projetos: o curta de ficção Detenção, Vestígios de um Futuro Remoto e Novembro, ambos longas de ficção.

Dea Ferraz. Imagem: Site Academia Internacional de Cinema
A diretora e roteirista pernambucana Dea Ferraz, sócia-diretora da Parêa Filmes, estudou jornalismo, fez especialização em documentários e pesquisa a linguagem documental há mais de 15 anos. Com curtas, médias e longas metragens, Dea ganhou prêmios no México, Argentina, Cuba e Brasil. Já lançou os filmes Câmara de Espelhos (2016), longa-metragem sobre a violência do machismo cotidiano, e Modo de Produção (2017), que tem o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca como personagem central. Ambos circularam por festivais, como o Festival de Brasília, ForumDoc e a Janela de Cinema.
Já a cantora pernambucana Clarice Falcão foi roteirista das séries As Cariocas, As Brasileiras e Loucos por Elas. Sua lista de curta-metragens é formada por: O Segundo Minuto (diretora e roteirista), Dois Menos Dois (diretora), Laços (produtora) e Chamada em Espera (diretora e roteirista).
AS MULHERES NO AUDIOVISUAL EM PERNAMBUCO
O artigo “Mulheres no Audiovisual em Pernambuco: Um Mapeamento do Perfil da Cadeia Produtiva Feminina no Funcultura” (2017), das autoras Soraya Barreto Januário e Janaína Guedes Evangelista, analisou os projetos aprovados no edital 2015/2016 do Funcultura Audiovisual, totalizando 101. O primeiro dado apresenta que dos 82% das mulheres que participam dos projetos, apenas 30% ocupam funções de direção ou roteiro. Os 70% restantes trabalham em funções diversas. Milena Times destacou a dificuldade das mulheres ocuparem cargos de direção, especialmente em filmes. Como assistente de direção, ela trabalhou em 11 longas metragens, apenas um dirigido por uma mulher, e 5 curtas, onde três foram dirigidos por mulheres. “Por conta de fatores diversos, que envolvem acesso à formação e aos recursos, oportunidades de trabalho, reconhecimento etc, é mais difícil para uma mulher, no Brasil, se firmar como diretora. Uma pesquisa da Ancine analisou 142 longas lançados comercialmente em 2016 e revelou que menos de 20% foi dirigido por mulheres, nenhum por uma mulher negra e 2% por homens negros”, afirmou Milena.
Anny Stone comentou sobre a conquista em relação ao edital do Funcultura Audiovisual em 2018, pois “62% dos projetos aprovados eram dirigidos e/ou roteirizados por mulheres, um marco inédito, mas que reforça o potencial do cinema feito por mulheres. No edital de longas e produtos para TV, em 2020, foi incluída a obrigatoriedade de aprovar 50% de projetos que contassem com profissionais mulheres, negros/as e/ou indígenas nas funções de direção e/ou roteiro”.
O número de mulheres no audiovisual em Pernambuco vem crescendo, mas a visibilidade continua pequena e são poucas as que assumem cargos de decisão. A representação no cinema precisa crescer para fazer com que seja comum ter a presença feminina dentro e fora das telas. Nesse caso, Anny reforça que as mulheres sempre trabalharam nos sets de filmagem, mas, por muito tempo, ocupavam prioritariamente os cargos de assistência, arte, figurino e maquiagem. Atualmente, estão presentes em cargos que antes eram quase que exclusivos dos homens, assinando a chefia de diversos departamentos.
Esse avanço aconteceu por causa da reivindicação desses espaços a partir de coletivos, como o Mulheres do Audiovisual – PE, e discussões em associações, como a ABD/ APECI – PE. “Eles repercutem nossa luta perante entidades do governo, mas também pressionam as produções locais para garantir essa pluralidade. Iniciativas como o Fera, que mediou oficinas para realizadoras, e o Festival Fincar, para filmes feitos por mulheres, também contribuem para um maior reconhecimento do nosso trabalho”, afirma Anny.
Atualmente, há mulheres discutindo espaços e lutando por eles no audiovisual e procurando aumentar a representatividade na área cinematográfica. Em Pernambuco, a participação das mulheres nos cargos de comando está crescendo, mas ainda não é considerada como algo comum. De acordo com Milena, as mulheres ainda travam lutas pelo acesso paritário aos recursos, protagonismo e pela visibilidade. As dicas que ela daria para aquelas que querem trabalhar com o cinema são “busque um conhecimento diversificado e se junte com quem você sente afinidade. Ampliar o nosso leque de referências para além dos homens brancos que se tornaram cânone no cinema e na literatura nos permite ativar o olhar e a sensibilidade de maneira mais plural, algo que pode contribuir muito para processos criativos com os quais a gente se identifique mais. Não travar a empreitada de se aventurar no cinema de forma solitária também é importante. A troca é uma ferramenta de formação muito potente. Outra dica que eu talvez desejasse ter ouvido mais é: não espere se sentir ‘pronta’ para começar um roteiro, filme ou uma função. É fazendo, arriscando e experimentando que a gente vai colhendo as pistas do que queremos alcançar”.
Anny afirma que sabe o que é fazer cinema sendo mulher no Recife. “Sofremos alguns preconceitos, talvez até demoremos mais tempo para ter nossas obras reconhecidas, mas sempre aprendemos que juntas somos mais fortes. Não acredito que existe um ‘cinema de mulher’, mas acredito que possam existir narrativas a partir de novos olhares, diferentes desses que já estão estabelecidos no cinema, seja ele local ou internacional”, garante. Já Milena afirma que “vivemos em uma sociedade essencialmente machista e o meio audiovisual não é exceção. A capacidade e a habilidade das mulheres é questionada com muito mais frequência e rigidez que a dos homens e a partir de um parâmetro essencialmente masculinos. Aos poucos, com cada vez mais mulheres ocupando uma diversidade maior de espaços, vamos tentando mover essas estruturas que oprimem, apagam e silenciam.”
Stone também concorda que deveria ter mais eventos voltados para a presença feminina no cinema, pois permite que as realizadoras se conheçam, troquem ideias, conversem e debatam sobre diversos assuntos. Ela também acha importante que contemplem mais filmes de diversas temáticas feitos por mulheres, como produções falando sobre ser mulher e sua forma de ver o mundo em geral, seja falando de política, amor ou drama. Além disso, ela comenta sobre como os renomados festivais devem abrir mais as suas portas para o conteúdo criado por mulheres.
Representatividade
Entrevista com Anny Stone
Anny Stone é formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e Cinema pela Universidade Federal de Pernambuco. Ela trabalha com audiovisual há 12 anos.
Anny Stone começou sua carreira no cinema como estagiária de produção e migrou para outros departamentos, principalmente na área de direção. Para Anny, fazer cinema é contar histórias pessoais, seja em forma ficcional ou documental. “Fazer cinema no Brasil e, em especial, em Pernambuco, é fazer um cinema periférico, de resistência, de insistência em uma forma de arte coletiva e, infelizmente, muitas vezes inferiorizada pelo público”, afirma.
O primeiro contato da pernambucana com o cinema foi em 2008, quando foi estagiária de produção de um curta-metragem. Em 2011, trabalhou como video assist no filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Essa função permitia que acompanhasse os trabalhos do diretor de fotografia, Ivo Lopes, e de Lacerda, já que cuidava do monitor que o diretor utilizava para assistir as gravações. Em 2013, Anny fez um intercâmbio pelo Ciências Sem Fronteiras para estudar cinema na New York University (NYU).
Em 2015, após concluir o curso de Cinema, a cineasta teve o roteiro de Geronimo, curta-metragem que dirigiu a partir do roteiro do seu pai, Sidney Rocha, aprovado na categoria Ary Severo do edital Funcultura Audiovisual. Ela compartilhou que, no início, o roteiro se passava na Patagônia e pretendia ter Ricardo Darín como protagonista. No produto final, Geronimo foi interpretado por Sebastião Formiga, ator paraibano, e as filmagens ocorreram no Vale do Catimbau. A narrativa é em torno da caminhada difícil do personagem.

Prêmios do curta-metragem Geronimo. Imagem: Infogram
Anny adiciona que “a melhor parte é poder acompanhar as expressões nos rostos das pessoas, conferir que todos os momentos pensados para fazer o público suspender a respiração realmente alcançaram esse propósito, ouvir os comentários e debater a obra depois da sessão. Os prêmios são bons também porque reafirmam que o cinema feito por mulheres é incrível, sensível e tem tudo para brilhar sempre”.
Atualmente, Anny atua nas funções de 1ª e 2ª assistente de direção, que cuidam da ponte entre a direção e produção do filme. Seus trabalhos mais recentes foram o longa de Hilton Lacerda, O Fim de Festa, e a próxima série dele que se chama “Chão de Estrelas”. Ela já trabalhou com outros diretores, como Léo Falcão, Eduardo Morotó, Adelina Pontual, Lírio Ferreira, Letícia Simões e Renata Pinheiro.
DICAS DE ANNY
Para divulgar os trabalhos das mulheres do audiovisual, Anny Stone indicou para o público feminino alguns filmes que ela participou na produção e comentou sobre eles:
- Casa, documentário da diretora Letícia Simões. “Tudo que ela faz é poesia, mas tenho um carinho especial por esse porque trabalhei no filme. Ele trata das relações familiares, do amor e dos conflitos que atravessam as gerações, de tantas coisas que aprendemos e não queremos repetir, mas que a genética insiste em semear. É um filme feito por Letícia ao longo de cerca de cinco anos, registrando momentos, conversas e cartas trocadas entre ela, a mãe e a avó”.
- Fantasia de Índio, de Manuela Andrade. “É outro mergulho em memórias e descobertas pessoais sobre a ascendência indígena da diretora. O filme questiona o imaginário urbano sobre os índios atuais e busca desconstruí-lo a partir uma perspectiva indígena de mundo, possibilitada também através de entrevistas com índios da etnia Xucuru, residentes perto de Pesqueira, cidade do interior de Pernambuco”.
- Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. “O filme aborda o universo do brega no Recife, focando na rivalidade entre as personagens interpretadas por Maeve Jinkings e Nash Laila. Ele traz a inventividade e o tom lúdico inerentes de Renata Pinheiro, com música, cores, dança e onirismo. Além de diretora e roteirista, Renata também tem uma longa carreira como diretora de arte e é visionária em transformar sonhos em cenas”.
A cineasta relembra como foi uma experiência enriquecedora e um grande aprendizado trabalhar com essas diretoras: “Acho muito interessante que o trabalho de Renata circule não só pelo Brasil, mas pela América Latina, com parcerias com nossos hermanos argentinos. Letícia Simões é amiga e inspiração para mim, super competente, sensível, atenta, poeta. Me identifico muito com o trabalho dela, mas também com ela mesma. Manuela Andrade é outra que guardo no coração e que admiro tanto pessoal como profissionalmente”.
Para finalizar, o conselho que Anny dá para as mulheres que querem trabalhar no cinema é “não tenham medo de tentar. É necessário ter persistência, pois o mercado de trabalho de cinema no Brasil hoje sofre vários retrocessos. Então, para fazer cinema, é necessário estar ciente disso e ainda assim querer criar. Saber que não será fácil, mas que valerá a pena. E, por último, mas talvez o mais importante, sempre preste atenção nas pessoas. Seja para se atentar às histórias de cada um ou manter a harmonia com as equipes, tendo em vista que o cinema será sempre um trabalho coletivo”.

