A FALTA DO QUE OS MOVE, A FALTA DA PRODUÇÃO CRIATIVA

A ausência de espaço e apoio para as novas bandas é uma das principais críticas do cenário do Estado. Mas a problemática não faz parte do todo. O todo que faz parte do principal problema, a ausência do novo na atual geração.

“Não estou interessada na maneira como as pessoas se movem, mas no que move as pessoas.” Assim dizia, Pina Bausch, um ícone da dança contemporânea e revolucionária ao abolir o ballet para criar o teatro-dança. Bausch influenciou inúmeros artistas no mundo todo e deixou viva sua marca até hoje.

Assim como a bailarina, é o artista da música, das artes plásticas, do teatro. Uma força os move, um movimento intrínseco que surge de dentro, que corre nas veias. Que não é imposto, tampouco obrigado. E é nesse movimento que os pontos mais criativos, contraditórios e novos são revelados. É uma base que surge, justamente, sem o interesse de saber como as coisas já são feitas. Mas, sim, do que é feito por si próprio. Pois a arte original é o reflexo não só do seu movimento, como também de outro ser.

Traduzindo para o cenário underground, essa é a grande dificuldade encontrada pelos produtores no Recife: a ausência do que move as pessoas, do que move os artistas. A qualidade dos músicos e bandas locais iniciantes já  não possuem a mesma escala de produção que se tinha há dez anos atrás.

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Rômulo Maciel – Produtor Musical do Estúdio Reator

Isso se deve a fatos extrarregionais no mercado do rock nacional. As novas bandas vêm apresentado falta de criatividade nos seus trabalhos e isso  acarreta a diminuição de espaços dedicados a apresentações do gênero musical, como também ao desvirtuamento do estilo das bandas já consagradas. Muitas delas que iniciam como rock underground acabam perdendo sua identidade ao ser comercializada, modificando o seu produto para o rock pop empresarial.

Para o produtor musical do Estúdio Reator, Rômulo Maciel, o rock vem perdendo seu espaço não só em Pernambuco, mas em todo o Brasil. “O ciclo da música é constante e sempre está propício a mudanças, a cena underground do rock no Estado não é tão visível, mas nada garante que daqui a cinco anos a visibilidade comercial não tenha mudado o seu foco”, afirma o produtor.

 

 

 

“Nada garante que daqui a cinco anos 

a visibilidade comercial não tenha mudado o seu foco”

 

Mesmo com as dificuldades, ainda há um crescimento de bandas na região, porém muitas deixam as atividades e param de tocar, não conseguem vingar o esforço e permanecer na cena. Os caminhos diminuem, os espaços ficam restritos e a falta de incentivo restringe o sonho de muitos grupos iniciantes.

O guitarrista Cauê Cury dá aulas de guitarra e acompanha, diariamente, os novos perfis de guitarristas jovens, além do surgimento de novas bandas. Ele acredita que a dificuldade dos novos músicos é de fazer algo inovador.

Em sua escola, Cauê tenta buscar que os alunos desenvolvam suas composições de uma maneira mais livre e que tragam para o seu rock a mistura de referências e a aplicação do fusion, que é o gênero que unifica todas as outras sonoridades, como jazz, gospel, erudito, blues. Isso estimula a produção de novos sons, criações e originalidade de novas músicas. Como é o caso do surgimento do metal alternativo, a fusão do heavy metal com o rock alternativo, do metalcore, a fusão do hardcore punk com o heavy metal. Entre tantos outros.

Outra visão do professor e músico é que as novas bandas locais têm uma forte tendência a resgatar os clássicos do rock internacional e esquecem das próprias raízes e movimentos musicais de Pernambuco. “As bandas pernambucanas têm um ótimo potencial. Principalmente, por poderem colocar como diferencial a influência da música nordestina nas suas composições”, explica Cauê Cury.

E acrescenta, “No inicio as composições acabam tendo um caráter mais intuitivo, mas para se chegar ao profissionalismo é necessário que se tenha o estudo musical teórico e prático”. Para o músico o aprendizado desenvolve novas técnicas e aprimora a produção, o que também falta para o crescimento das novas bandas e para o cenário do rock underground.

 

“Para se chegar ao profissionalismo é

necessário que se tenha o estudo musical teórico e prático”

 

Não só da criação sobrevive o artista. Como não só da teoria se edifica o artista. O produto vem tanto da fonte idealizadora, quanto da fonte que lapida. Porém, é da força que move o músico que surge a sua produção e não da força que move as outras pessoas. Essa é a grande deficiência da nova geração, de enxergar o conteúdo próprio. Buscar referências e inspirações, mas apresentar a sua identidade e pessoalidade.

                                                     

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Cauê Cury – Professor e Músico

Em entrevista ao Comas Underground, Cauê mandou sua mensagem! Confira nosso vídeo!

 

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