A MÚSICA PERSONIFICADA EM GENTE

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Desde pequena já botava o vinil do pai para tocar e acompanhava o som de toda a coleção. Cresceu com a referência de grandes compositores da música brasileira no sangue. O seu destino não poderia ser diferente. Com 24 anos de idade, a pernambucana Laís Sampaio vive da sua maior paixão: a música. Sempre se infiltrando nos espaços onde conseguia entrar no Recife, ela foi fazendo seu nome e mostrando seu trabalho. Até que recebeu sua primeira proposta como produtora, a convite de nada mais, nada menos que, Arnaldo Antunes. Fez a mudança para São Paulo, rapidamente , e, desde então, não mais parou. Em três anos, ela chegou à produção de Karina Buhr, Baby Consuelo e, atualmente, da Banda Nação Zumbi. Em entrevista ao Comas, ela conta sua visão do cenário da música pernambucana, as suas deficiências, espaço e público. Fala também de quem fez a história da música em Pernambuco e os mais novos rostos da cena.

COMAS: Como você enxerga o cenário da música em Pernambuco hoje?

LAÍS SAMPAIO: Pessoalmente, sinto que existe uma diferença entre cenário e produção, muitos misturam e acham que são iguais. Olhando pela ótica de “cenário”, eu acho muito precária, partindo do princípio que o Estado, por mais que diga que valoriza muito, ainda é pouco. Já olhando por “produção”,  vejo como avassaladora, demasiada, de muita particularidade e identidade marcante.


COMAS: Qual a importância da produção de Pernambuco em todo o país?

LS: Pernambuco ganhou uma notoriedade no país como produtor de cultura, onde é muito valorizado em todas as vertentes. Grande parte da obra musical criada hoje em dia – seja direta ou indiretamente (falo cantor, banda grupo, assim como, compositor, arranjador, produtor musical ou produtor fonográfico), tem um pernambucano no meio.


COMAS: Como a música pernambucana é vista fora do Estado?

LS: Como falei anteriormente. Costumo dizer que tem pernambucano metido em tudo que é produção e acho que a confiança com o próximo, após dizer que vem do estado, aumenta uns 30%. (Risos)

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Arnaldo e Laís em descanso

 

COMAS: A música pernambucana é mais valorizada por quem está fora do Estado?

LS: Infelizmente, acho que é valorizada mais fora do que dentro. Vivemos um Pernambuco com ciclo vicioso de editais, leis de incentivo e apoios injustos, que se acostumou com esse modelo de cultivação cultural. E que sendo um Estado ainda provinciano, creio que vai demorar um pouco para mudar completamente. Enquanto isso não acontece, mais produção pernambucana vai sendo construída no eixo Rio-São Paulo, para depois ser aceito no “local”.

 


COMAS: Dá para crescer fazendo música em Recife?

LS: Crescer dá, pois o ser humano se adapta as condições do meio, mas ganhar uma visibilidade norte-sul-leste-oeste, precisa dar uns pulinhos para fora. Infelizmente, a comercialização de cultura, seja ela alternativa ou mercadológica, ainda acontece no sudeste do país. E isso serve para todos os Estados, não é só exclusividade de Pernambuco.


COMAS: Qual o espaço para as bandas iniciantes em Pernambuco?

LS: Não posso falar com propriedade se existe ou não estes espaços, pois moro em São Paulo há quase três anos e não vivo do cenário e produção de Pernambuco. Mas acredito que seja difícil, pois vejo, a cada mês, mais grupos de amigos, ou amigos-de-amigos, virem para São Paulo fazer rodar o trabalho produzido em Recife.

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Laís e Karina Buhr


COMAS: Para você, quem fez história e firmou a música pernambucana em todo o país?

LS: A história musical de Pernambuco começou desde cedo, com vários cantores e movimentos, que marcaram a música brasileira num geral, que de uma forma ou de outra, como todos os movimentos, que negam o passado para afirmar o futuro, sempre terminam se encontrando em pequenas essências. Capiba, com frevos, sambas e musica erudita; Luiz Gonzaga, criador do xote e um dos maiores comunicadores de música regional que o país já teve, de musicalidade única e que não à toa  recebeu a nomenclatura de rei; Alceu Valença, que afirmou mais uma vez a identidade única de Pernambuco, surgindo no inicio do rock marginal setentista, mas bebeu da fonte de Luiz Gonzaga, ao lado de Lula Côrtes, Geraldo Azevedo, Ave Sangria. Além de outros que viveram a psicodelia dos anos 70, uma “tropicália” nordestina e interna. Tivemos também os movimentos, como o Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna, que incluía musica, literatura, dança, artes plásticas, teatro, cinema. Surgindo dentro do âmbito da música, Quinteto Armorial – grupo instrumental, que trabalhava em cima da musica erudita, formado por Antonio Madureira e Antonio Carlos Nóbrega.  Esse último que desembocou no futuro para a cultura popular, levando ao mundo todo o frevo, maracatu, dança. Impossível não citar o movimento Manguebeat, propagador do Estado não só nacionalmente, como mundialmente. Década de 90, época de muitas transformações tecnológicas, midiáticas, sociais e políticas, logicamente a cultura seria influenciada, e Chico Science, encabeçou com toda essas evoluções citadas anteriormente , o movimento que fez Pernambuco ser um grande porta voz e gerador de cultura no país. A partir daí, grandes nomes da musica local também se tornaram do mundo, a periferia teve voz, a cidade começou a enxergar de outra forma seus defeitos e mudanças aconteceram (ou não). Devotos do Ódio, Eddie, Mundo Livre S.A, Faces do Subúrbio, Sheik Tosado, Mestre Ambrosio fizeram o sertão invadir o mar em forma de music. Disso, abriu portas para o início, sem negar toda a cronologia musical passada, de uma grande produção de artistas pernambucanos, os chamados filhos do mangue. São muitos a serem citados como Lenine, Lula Queiroga, Otto, Karina Buhr, Dj Dolores, Isaar, Mombojó, Vitor Araújo e tantos outros que dão continuidade a linha infinita da tão famosa frase: “Pernambuco falando para o mundo”. E claro, não posso esquecer do brega que anda descendo o morro nos carrinhos de som, atravessando o asfalto e chegando na beira-mar, como Banda Lapada, Kitara, Vício Louco e por aí vai.

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Matéria do Diário de Pernabuco com Láis Sampaio


COMAS: Você teve sua base de música em Recife, hoje mora em São Paulo e trabalha com mestres da música brasileira. No seu trabalho é visto a identidade e o diferencial pernambucano?

LS: Eu fui criada ouvindo música e, em grande parte, de artistas do Estado. A paixão já veio de berço, que me levou a entrar no meio indiretamente – produzindo por trás de grandes artistas. Saí de Recife por uma oportunidade que a cidade não me deu e que São Paulo me ofereceu. Hoje, não sei se estivesse morando em Pernambuco, teria conquistado tantos espaços como consegui no sudeste. E quando paro para pensar, não me vejo mais vivendo, produzindo o cenário cultural interno de Recife. Porque para haver um crescimento de fato, é mais uma questão social, do que governamental. Quando você fala que é de Pernambuco, já ganha um ponto (Risos). Com certeza é um plus a mais, devido a toda importância da produção musical e cultural que o Estado teve e tem. Mas, o mais engraçado de ser pernambucano e estar em São Paulo é que, hoje, esse grupo de pernambucanos andam em nicho e fazem de São Paulo uma colônia. Quero dizer que, a São Paulo que a gente reside, é o Pernambuco que a gente gostaria de viver. Todos que vêm pra cá, inclusive eu, têm a cidade como trabalho, 100% funcional, e contam os dias para ir à sua terra natal. Aqui acontece a produção e circulação que o nosso Estado não possui. Além da essência de Pernambuco, que não tem em São Paulo, ela vem com a gente e demora muito pra sair. É um “oxe, véi” que nunca vai virar um “meo, mano”. (Risos)

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Laís conferindo o ensaio de Guizado


COMAS: Qual sua visão do público pernambucano?

LS: Cada cidade e Estado tem sua particularidade de acolhimento e recebimento. Não sei se é porque sou de Recife, mas acho um dos mais especiais. Eu, por exemplo, que trabalho com a Nação Zumbi – banda que cresci como ídolos e se tornaram patrões, acho dolorido (com o perdão da afirmação) assistir um show fora de Recife. Existe uma maloqueiragem e um calor, que só o publico pernambucano sabe transmitir.


COMAS: Na sua opinião, qual é a melhor banda iniciante do Recife?

LS: Atualmente, eu comecei a olhar com outra perspectiva o Johnny Hooker. Ainda quando morávamos em Recife, pois ele também está morando em São Paulo, eu não gostava do Candeias Rock City (banda anterior ao Johnny Hooker).  Hoje, ele deu uma reciclada na sonoridade, mas não perdendo a imagem e atitude que sempre teve, isso vem me encantado bastante. Acho que ele em um grande futuro pela frente. Gosto muito de Catarina Dee Jah, que não é iniciante, mas só agora conseguiu gravar seu primeiro disco. Tanto que tem na contra capa dele: “Recusado em oito editais”.  Aí, você vê e começa a entender como é o processo  de toda a produção no cenário Pernambucana, e voltamos para o inicio da entrevista. (Risos)

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