O CENÁRIO RICO E EXPORTADOR DE PERNAMBUCO

Uma roda viva que sempre se renova a cada década. A reciclagem do antigo. A produção do novo. Um espaço onde o erudito, o de rua, o peso e a leveza  fazem parte de uma mesma atmosfera. Essa mistura de sons e ritmos, de criatividade borbulhante, não teria como nascer em outro local que não fosse Pernambuco. O Estado é terra prima para semear arte. De povo que valoriza o chão que pisa. De gente que valoriza a sua identidade no palco.

Com a cena underground não é diferente. Ela nasce de todo projeto de música que se inicia. Seja o som do frevo, do rap ou o do rock, a essência underground está presente: abaixo do chão, aquilo que ainda não tem preço, não tem visibilidade. O Brasil como um todo trouxe esse cenário de forma mais retardatária do que em outros países, em Pernambuco ainda houve um atraso maior.

No final dos anos 80,  Canibal, Neilton e Celo Brown montaram a banda Devotos do Ódio. O grupo vinha lá do Alto José do Pinho,trazendo a realidade da vida no bairro ao som do punk rock. Para ganhar notoriedade não foi fácil. Na época só quem tinha nome no mercado da música era Alceu Valença.

“Alceu Valença não estava nem aí para ninguém. E hoje em dia a gente independe de Alceu Valença, independe da MTV, independe de todos os lugares. A gente tem uma música forte”, desabafou, o cantor e apresentador,  China. Foi com o surgimento do movimento Mangue Beat, encabeçado por Chico Scicene, Fred 04,  Renato L e Helder Aragão, que o Estado surgiu como identidade na música em todo o mundo. Ele  abriu espaço para uma geração de bandas, que seguem até hoje percorrendo esse caminho. A produção pernambucana ganhou o respeito e admiração de grandes músicos, críticos, estudiosos e público.

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Chico Science no Festival Abril Pro Rock 1993. Imagens: Fernando Gusmão/ DP

 

Com o nascimento do movimento, surgiu mais uma produção forte da cena do estado, o primeiro festival de rock em Recife, o Abril Pro Rock. O evento trouxe bandas de renome de  todo o país, além de grupos internacionais. Esse ano completou 20 anos de história, com apresentação de bandas consagradas e a revelação de novos grupos, seguindo o perfil original do festival.

Ainda nos anos 90, uma geração mais nova surgiu fazendo a mistura do rock hardcore com os ritmos de Pernambuco, maracatu e frevo. Esse grupo foi liderado pelo cantor e também apresentador da MTV, China. Com o nome Sheik Tosado, seis garotos irreverenciaram com as suas composições. Com dois anos de surgimento foram lançados também no festival Abril Pro Rock, gravaram o primeiro  álbum e chegaram a se apresentar no Rock in Rio.

 

E nesse fluxo após a explosão do Manguebeat, as bandas passaram a seguir um trajeto mais curto para o alcançar o público. O rock alternativo ganhou força, assim como o emocore, nos anos 2000. Foram firmados  grupos como Mundo Livre S/A, Nação Zumbi,  Faces do Subúrbio, Devotos. Lançadas bandas como Eddie, Mombojó, Terra Prima, Joseph Tourton. Além de músicos, como: Lenine, Lula Queiroga, Isaar, Otto, Júnior Black, Vitor Araújo, Tibério Azul, Karina Buhr, Dj Dolores.

A produção é grande, mas alguns impasses dificultam a carreira de música no Estado. ” A cena é boa, é forte. A dificuldade mesmo é de não ter uma estrutura voltada para isso”, disse o roadie Caio Lemoaine. Por maior que seja esse cenário pernambucano, há um limite de crescimento, pois a execução do mercado ainda é  provinciana. As bandas que ganham notoriedade buscam uma maior expansão, mas não encontram espaço. A cena já tem sua identidade e respeito, falta o suporte do sustento. Hoje, o Estado é um grande lançador de músicos, produtores e técnicos da música para todo o mundo.

 

 

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